domingo, 28 de março de 2010









Na época em que criei esse blog, tinha alguns apontamentos para fazer, sobre a vida, a perspectiva da morte eminente frente a toda latenticidade da solidão. Era engraçado estar vivo em um tempo de guerra, as cinzas das coisas caiam sobre minha fronte e maculavam meus olhos com imagens de terror, mas era preciso continuar fugindo e reinventando caminhos pra lugar algum, achava ás vezes que viver era vivenciar o eterno ritual da fuga.

A quem diga que a vida está lá fora à espera de todos, a minha espera escondida em uma infinidade obscura de possibilidades de existir e coexistir, mas tenho rido disso e de todo o resto.

Tenho praticado a sincera arte do devaneio e tenho mergulhado no brumário universo da cogitação não-filosofica, a cabeça anda longe do coração que está reaprendendo a bater.
Esqueço as vezes que é preciso buscar um pouco de serenidade, parece que tenho procurado em vão, por caminhos errados, queria algumas respostas, mas preciso achar algumas perguntas primeiro, onde elas estarão?

Pra quem eu perguntaria nessa tarde e nessa noite que se aproxima, tenho em mim a síndrome da tristeza e não sei como curar as estacas que estão fincadas no peito. Sei apenas que é preciso correr e desbravar caminhos desconhecidos, talvez parar nas margens do caminho e reavaliar as idas sem voltas da vida. Aqui caberia espaço para uma sonora gargalhada, mas já não tenho forças, já não tenho gestos ou músculos, falta a gula de querer devorar a vida, falta a ânsia de tentar conquistar as coisas, as pessoas e mundo.
Falta tempo, falta coragem, falta paz e sobretudo faltam palavras pra descrever as coisas que eu queria deixar de saber, deixar de querer e sobre tudo deixar de sentir.

Tinha todos esses apontamentos realmente, anos atrás, tantos que parecem séculos, quase que já não me lembro, mas no fundo da memória ainda me salta um reflexo desses dias, bem opaco, quase que imperceptível, mas mesmo assim ainda indelével, difícil deixar tudo para trás e voltar a por os pés na mesma estrada de outrora. Reaprender a caminhar é uma lição que não se aprende só, e preciso ensinar antes, ensinar o caminho a si mesmo e ao coração, e somente então fazer a jornada de volta. Cá estamos em franca caminhada, o peito nua, e ainda caem cinzas do firmamento, mas já não são mais queimadas, o mesmo fogo já anão arde, pelo menos da mesma forma, pelo menos não com as mesmas brasas.

A caminhada para se descer a montanha é árdua, mas reconfortante, alivia, tira o peso de sobre os ombros, descansa as omoplatas. Enfim, é caminhando que se aprende o caminho de volta, voltar é uma necessidade, sempre, reaprender, recomeçar, divisar mais uma vez o velho horizonte, agora uma imagem nova. Redescoberta, recolorida, cores mais vivas, mas afogueadas, calientes, talvez essa seja a palavra que nesse momento procura, com fúria escapar dos meus lábios.

Mas hoje esse blog, de cara nova, textos antigos e recentes, garimpados, encontrados aqui e acolá entre restos de passado, fotografias, livros, enfim, misturados a vida em si, hoje esse blog é somente isso, isso que a palavra teima em dizer, um blog, uma ferramenta virtual de livre expressão, e aqui estão reunidos alguns de meus textos, eles são gritos, são sussurros, são apelos, pedidos, orações, suplicas, já não sei mais o que são, ou o que serão em um futuro próximo, mas acima de tudo há a necessidade de trazer a publico as nossas ânsias e carências mais ocultas, desde sempre, há a necessidade de nos pormos a mostra, nos expor-mos a mundo, eterna vitrine de desejos, esse sarau de idéias, orgia de devaneios, cá estou então para dançar conforme a música.

Talvez por isso ainda mantenha esse blog.


Não sei, Leticia!


Às vezes me perguntam de onde é que vêem as idéias para as coisas que escrevo. Muitas delas são tiradas do dia a dia, muitas outras são loucuras mesmo, momentos de insanidade temporária. Letícia foi quem me fez essa pergunta pela primeira vez, ela tinha 14 anos e u 19, isso então virou rotina, ela me perguntava pelo menos uma vez por semana. Eu respondia sempre da mesma maneira.
- Não sei, Letícia.
Na adolescência eu escrevia a mão, em cadernos de brochura, depois veio minha primeira máquina, uma velha Olivetti, foi então que desaprendi a escrever à mão, fiquei igual àquela personagem de Ruben Fonseca, Minolta, mas ao contrário dela meu nome não era marca de máquina fotográfica e eu não andava nu pela casa, pelo menos não naquela época. No entanto, assim como Minolta, eu só sabia escrever à maquina, foram longos anos dessa dependência, se pegasse um lápis ou uma caneta, pronto as idéias fugiam da minha cabeça. Letícia queria saber o porque?
- Não sei, Letícia. – Eu respondia também nessas ocasiões.
Letícia queria saber de muitas coisas, por isso talvez tenha se interessado pelos livros, no principio começou a ler filosofia, desde os pré-socráticos e foi avançando, meio trôpega é bem verdade, mas sempre enfrente até que chegou a Nietszche, foi então que me perguntou o que ele queria dizer.
- Não sei, Letícia.
Eu não entendo Nietszche, quem entende? É um saco, todos eles são um saco, um bando de velhos babões. Nunca gostei de seus bigodes, suas barbas e seus ares de sabichões.
Letícia parecia cada vez mais interessada em tais coisas, lendo livros cada vez mais velhos, mais grossos, mais chatos. E eu sempre dizendo.
- Não sei, Letícia.
Acho que foi por isso que ela se cansou e foi embora com apenas dois anos de casamento.

Três anos e ainda sinto saudades dela, alguns de seus livros ainda estão espalhados pela casa, ela os deixou, deve ter esquecido na hora da mudança, de modo que estão juntando poeira pelas estantes. Não é que eu não goste de livros, isso não é verdade, pelo contrario, alias, como poderia, afinal eu sou escritor, ou pelo menos imagino ser, finjo para mim mesmo e para os outros.
Com apenas 14 anos Letícia já era um mulherão, escrevi muitos poemas nessa época, ela foi minha mais adorável musa. Ela lia os poemas e sempre queria saber o significado dessa ou daquela palavra.
- Não sei, Letícia.
- Ora, não foi você quem escreveu?
E a conversa ficava por ai. Está ai uma coisa interessante e que nos remete a uma duvida no mínimo curiosa, poderá o poeta, o escritor, não saber realmente sobre o que deveras escreve?
- Não sei, Letícia.
Bem, ela agora está vivendo com um sujeito que aparenta saber das coisas, professor universitário, filosofo, diga-se de passagem, todo certinho, parece-me que ela finalmente encontrou alguém capaz de lhe responder todas as perguntas, saciar toda a sua curiosidade.
E eu? Pois é, continuo em meu mundinho, agora um mundinho não mais povoado por Letícia alguma. Quase todas as noites eu me pego penando nela, sua testa levemente enrugada sempre que me perguntava alguma coisa, e em seguida o ar de decepção que a tomava assim que eu repetia meu quase bordão.
- Não sei, Letícia.
No fundo antes de fazer a pergunta ela já conhecia minha resposta, dizia que eu tinha preguiça de explicar, por isso me limitava a fingir ignorância. Às vezes acho que ela poderia de fato estar certa, mas não na maioria das vezes. Resumo da ópera; eu era mesmo um grandíssimo ignorante, desinformado e sem nenhum pingo de curiosidade, totalmente ao contrario de Letícia.
Ela, no entanto, se dava muito bem com minha mãe. Mamãe sempre parecia saber de tudo, ficavam horas em uma lengalenga interminável, um saco, conversas sem sentido, minha mãe também tinha o mau habito de ler Nietszche e companhia limitada, sempre velhos babões e chatos, enfim, uns pés no saco.

Eu tenho uma coluna semanal em um jornal que muita gente lê, o jornal e não exatamente a minha coluna. De modo, que mesmo assim, recebo muitos e-mails, geralmente ofensivos, devo esclarecer, confesso que não sou muito querido pelos pouquíssimos leitores de minha coluna. Não sei como ainda escrevo para esse mesmo jornal a mais de uma década e ainda não demitido por incompetência, seria justa causa. Minha coluna se intitula O BESOURO.
- Por que O Besouro?
- Não sei, Letícia.
Acho que foi exatamente nesse momento que nossa relação de fato começou a desmoronar ate culminar mais tarde no que seria um divórcio amigável.
O Besouro era uma espécie de cronista urbano, ou seja, escrevia sobre coisas em que ninguém estava interessado em ler, e digamos que minha prosa também não era das mais brilhantes, somando a tudo isso à imensa futilidade dos temas abordados dava-se os e-mails pouco amigáveis que recebia.
A algumas semanas atrás recebi um e-mail de uma moça chamada Letícia, coincidência ou não, ela parecia ser bastante curiosa.

“Caríssimo Besouro (aqui devo abrir um parêntese e explicar que O Besouro é o nome da coluna e não o meu pseudônimo)...Às vezes, muito raramente, leio sua coluna, quando estou de bom humor, geralmente entendo muito pouco do que escreve, talvez por que seu texto seja vazio demais, não diga nada sobre coisa alguma, resumindo, uma merda. Fico curiosa em saber como consegue escrever uma pagina inteira sem dizer absolutamente nada...”

Respondi somente;
- Não sei, Letícia.
Mas é claro que escrevi com letras maiúsculas tamanho 26 e cor vermelha, para que ficasse claramente documentada minha completa ignorância.
Recebo elogios também, as vezes. Em um desses e-mails havia um que dizia “Gostei muito do sentido que o senhor deu a palavra ABOBORA, fiquei até com fome.” Talvez por esses e-mails, esse malfadado reconhecimento do publico eu ainda insista em escrever semanalmente em O BESOURO.

Há alguns meses atrás o telefone tocou às três horas da tarde, era Letícia, queria saber o número do telefone da minha mãe
- Não sei, Letícia.
- Não sabe o telefone da própria mãe, vá se ferrar!
Eu fui.
Escrever não exige necessariamente talento, qualquer idiota alfabetizado pode fazê-lo, a prova disso sou eu e mais uma meia dúzia de outros escritores, alguns inclusive de fama internacional, o fato é simples; o papel em branco e uma idéia na cabeça geralmente é uma arma na mão de um idiota. Li isso em um dos e-mails que recebi, era de um senhor que mandou uma foto em anexo, mostrava a língua e o dedo em uma pose obscena. Ah, se chamava Rodolfo, me lembro bem do bigode, enorme, tinha um grão de arroz grudado em um dos cantos. Respondi-lhe, na ocasião, mandando-lhe uma foto do meu pênis, ampliada três vezes para que o homem não tivesse a menor duvida sobre a identidade do objeto da fotografia.
De fato eu não sabia mesmo o número do telefone da minha mãe, era ela quem sempre me ligava e eu quem desligava. Quando éramos casados era Letícia quem se pendurava no telefone com a sogra, geralmente falando grego ou alguma outra língua alienígena, que eu desconhecia por completo.
- Do que tanto falavam?
- Coisas de mulher meu bem.
Ali estava a prova de que as mulheres realmente eram seres de outro planeta. Minha mãe sempre que nos visitava trazia pequenos mimos para Letícia, quase nunca trazia alguma coisa pra mim, entendam bem, eu não estou com ciúmes, mas venhamos e convenhamos, o filho, nessa história toda, era eu. Ou não era?

Eu descobri a ironia nos primeiros meses de casamento (mas nunca consegui diferencia-la do cinismo, afinal, talvez fossem a mesma coisa.) não foi uma experiência muita clara, nem mesmo percebi a coisa toda, aconteceu em uma tarde de sábado.
- Você cortou o cabelo, Letícia?
- Não seja irônico, já faz uma semana que o cortei, se não gostou diga claramente. Não gostou?
- Não sei, Letícia.
Pronto, eu já não era mais um jovem ingênuo, estava descoberta a tal ironia, e nos anos que se seguiram eu usei e abusei dela, no entanto, hoje percebo que era mais uma espécie de idiotice bizarra do que propriamente ironia.
Certa vez defini a palavra IRONIA em uma das publicações semanais de minha coluna, como sendo “uma piada sem muita graça, às avessas.”De fato eu era irônico, não havia mais duvidas, foi isso que um rapaz escreveu em um curo e-mail ofensivo. “Vá a merda com sua ironia, seu veado!” ele também era irônico e não havia a menor graça no e-mail, tive vontade de mandar para esse também a foto ampliada de meu pênis, mas não o fiz, seria ironia demais, ponderei.
O grande problema de se ser colunista de um jornal de certo prestigio é que as pessoas o julgam pelo que você escreve, nem sempre o cara por detrás das palavras se parece com o que diz, mesmo não dizendo nada, como, aliás, é o meu caso. Eu procurava passar uma imagem seria, por isso escrevia com o dicionário, escolhendo as palavras, gostava daquelas que deixavam escapar um certo ar de sobriedade, mesmo que carrancudas. Recebi um e-mail de uma mocinha perguntando o que eu quis dizer com a frase; “ O proletário azul defenestrou a meretriz!” Na verdade não queria dizer nada, pelo não menos não que eu soubesse, e eu nem mesmo poderia dizer que se tratava de uma metáfora sobre a sociedade estamental ou alguma outra bobagem do gênero, eram apenas algumas palavras que eu gostava.
Dessa vez eu não respondi ao e-mail.

Resolvo procurar Letícia, 3 anos depois. Ela tem uma dessas campainhas antigas tipo ding-dong, a casa está toda enfeitada para o natal, luzes pisca-pisca, sapatos nas janelas, arvores coloridas, enfim coisas desse tipo.
Toco a campainha sem cessar, sou impaciente.
- Já vai! – Ouço gritando de dentro
Ela abre a porta.
- Arthur?
Fato importantíssimo, porem ainda não revelado, meu nome; Arthur, coisa da minha mãe, era o nome de um poeta, um cara meio doidão, que traficou até armas, Rimbaud, esse era o nome do tal sujeito, bem coisas de mãe.
- Quanto tempo! – Ela diz.
- Três anos e algumas semanas.
- Mais ou menos.
- Faltavam algumas semanas para o natal, quando você foi embora.
Ela não diz nada, apenas fecha a porta e me mostra a sala, entendo nesse gesto um convite para entrar e me sentar, então caminho para a poltrona no canto da sala.
- Não sente ai. Essa é a poltrona do Geraldo. Sente naquela outra.
Ela mostra a tal poltrona com o dedo indicador.
Geraldo é o tal filosofo sabe tudo e mais um pouco, imagino.
Eu me sento obediente.
- Eu tenho lido O Besouro. – Ela diz.
- Não perca seu tempo, Letícia.
- Eu gosto, verdade, sempre gostei de seus textos.
Conversamos por alguns minutos. Na verdade ela fala na maioria do tempo, sobre o tempo, sobre o passado, sobre os livros que anda lendo, sobre Geraldo a enciclopédia ambulante e blá, blá, blá, eu me limito a apenas ouvir.
Em dado momento eu me levanto e resolvo que é hora d ir embora. Ela me leva até a porta.
- Quando nos veremos de novo? – Ela pergunta.
- Não sei, Letícia.
Como sempre isso é tudo que consigo dizer.

24-12-09.





Usuário 482


Há duas longas semanas não saia de casa. Os dias se esticavam, alongavam-se para além do balé sinistro dos ponteiros do relógio na parede, enorme, faraônico, hostil. Patrício há duas semanas olhava para a janela, morava no terceiro andar, a janela dava para a esquina, ele via nitidamente o orelhão.
Há exatamente duas semanas o orelhão era seu objeto de estudo, um estudo meticuloso, com um binóculo observava o movimento ao redor do cubículo, em um caderno fazia anotações. As descrições eram claras, qualquer um poderia desvendar sua caligrafia de ex-professor primário.
158 pessoas haviam passado pelo orelhão nessas duas semanas, Patrício tinha tudo anotado, a mediada que via através das lentes do binóculo, ia transformando as imagens em dados precisos, estatísticas, os usuários estavam todos catalogados. Ele era bastante preciso em suas descrições, metódico, observava com calma, cautela, dando extrema importância aos menores detalhes.
Estava tudo ali no caderno, 158 pessoas meticulosamente descritas, altura aproximada, cor da pele, cor do cabelo, a roupa, os sapatos, detalhes como brincos, bonés, chapéus, gravatas, pulseiras e afins, tudo estava anotado.
Patrício com o binóculo em punho observava a 159ª pessoa a se dirigir ao aparelho. Uma mulher loira, bastante loira, vestido branco, nem curto, nem longo, um pouco abaixo da linha imaginaria que divide as coxas. Ele vai anotando. Observa com especial interesse a curva dos seios, o formato do rosto, a envergadura do braço estendido enquanto digita a série de números.
Nota que a mulher está bastante inquieta, olhando para todas as direções, como quem tem medo de ser surpreendida, enquanto espera a ligação ser completada. Passa as mãos sucessivas vezes pela cabeleira amarela, cabeleira essa que Patrício observa que não são naturais e sim frutos da moderna indústria cosmética, possivelmente aquele tom se deriva de algumas dessas novas colorações artificiais tão em voga entre as mulheres modernas.
Ela fala com os lábios colados ao aparelho, balbucia, enquanto olha em todas as direções. Patrício anota a hora do telefonema, 21:30. Depois de breves instantes daquela conversação incomum a loira devolve o aparelho ao gancho e fica parada na esquina. Parece aguardar por alguém. Isso ele não anota no caderno, afinal isso não interessa as estatísticas.
Ele sente sede, há varias garrafas cerveja na pequena geladeira em um dos cantos do cômodo, há duas semanas atrás eram muitas, à medida que os dias iam se passando enquanto observava o orelhão foi consumindo-as uma após a outra até restarem menos de uma dúzia. Abre uma delas e bebe no gargalo, acende um cigarro e volta para seu ponto de observação. A loira não está mais ali. Silêncio no orelhão.


Há três longuíssimas semanas, Patrício observa o orelhão. Notou que nos finais de semana o movimento de usuários do aparelho quase que triplica, notou também que nesses dias não existe um padrão exato de usuários, são todos os tipos de pessoas, desde crianças a senhores idosos e surdos que ficam gritando no aparelho. 3 semanas e já não resta mais nenhuma cerveja na geladeira, a comida também está ficando escassa, tem se alimentado basicamente de pão e queijo e tomado água.
A noite vai caindo, o movimento da rua vai diminuindo, por conseqüência também os usuários do aparelho telefônico da esquina, Patrício anota essa observação, isso importa as estatísticas, horários de maior e menor fluência de pessoas implica diretamente no funcionamento de seu objeto de estudo, o orelhão. Há dois dias atrás notou algo incomum, as pessoas colocavam o cartão no aparelho e depois desistiam de usa-lo e se iam embora, sem fazer ligação alguma. O aparelho estava com defeito, anotou isso também, importante fato. Na tarde do mesmo dia parou na esquina um carro com a logomarca, na porta, da empresa responsável pela manutenção do serviço de telefonia da cidade. Dois funcionários uniformizados passaram cerca de vinte minutos na recuperação do aparelho. Pronto ele estava de volta a ativa.
Patrício sente sede mais uma vez, mas as cervejas acabaram. Sem tirar os olhos do binóculos ele pega o telefone e pede uma pizza e um refrigerante dos grandes. Enquanto isso vê a mesma loira de uma semana atrás se aproximar o orelhão, está vestida o mesmo vestido branco, mais uma vez aguarda impaciente que a ligação seja completada, depois apenas cochicha no bocal do aparelho, enquanto mais uma vez observa a rua em todas as direções. Coloca então o telefone no gancho e volta para a esquina novamente em pose de quem aguarda por alguém.
Ding-dong
A campainha toca. Deve ser o entregador de pizza. Patrício o paga e ainda lhe da meia dúzia de moedas como gorjeta, então o entregador se vai resmungando. A loira não está mais na esquina, mais uma fez ele anota tudo no caderninho, hora, a roupa repetida da mulher, etc. Com a volta da loira, 220 usuários já passaram pelo telefone nesse tempo em que Patrício o tem observado. Ela sempre cautelosa, sempre falando aos murmúrios sempre aguardando na esquina e sempre desconfiada, essas informações ele não anota não fazem parte da sua pesquisa.
Mas que pesquisa é essa? Pra que todos aqueles gráficos, estatísticas? Nem mesmo Patrício sabe o porque dessa observação insana do orelhão da esquina, o caderno está quase todo cheio de dados, gráficos, estatísticas, diagramas, mas nem mesmo ele compreende esse repentino voyeurismo, que lhe surgiu tão de repente a quatro semanas atrás. Não consegue fazer quase nada além de se postar na janela com o binóculo em punho e observar o movimento de usuários do orelhão. Não tem mais lidos jornais, nem assistidos seus programas humorísticos que tanto gostava na TV, sua vida se resumia a apenas observar incansável e a anotar no caderno, e nisso já se passou mais de um mês.


Quase dois meses e 481 já passaram pelo orelhão, dois cadernos já estão cheios dessas anotações. O telefone toca, pensa em não atender, mas o tira do gancho e o põem no ouvido, deixando o binóculo sobre o banco. É a mãe do outro lado da extensão.
- Filho, faz mais de dois meses que não o vejo.
- Oi mãe.
- O que está acontecendo, meu filho?
- Nada mãe apenas ando ocupado.
- Ocupado com o que meninão, nem mesmo sai mais de casa.
- Ocupado mãe, agora preciso desligar.
Coloca o telefone de volta ao lugar, pega o binóculo e volta a observa o orelhão. O que vê o choca. A loira do vestido branco está caída ao alado do orelhão. O vestido tem uma enorme mancha de sangue na altura dos seios. Ele olha e não acredita. Deixa o binóculo e corre para a rua, desce os três andares de escada e chega a esquina exausto, vê a loira, o sangue escorre do peito, um ferimento a bala.
Como ele pode perder o maior de todos os acontecimentos naquele orelhão? O assassinato da loira deve ter ocorrido enquanto conversava com mãe no telefone. A loira ainda respirava. Patrício corre para o orelhão e liga o numero da emergência.
Volta para o apartamento e com o binóculos nos olhos observa a ambulância chegar e levar a loira embora com a sirene ligada. Por alguns instantes ainda fica ouvindo o som da sirene cada vez mais longe até desaparecer por completo. Depois somente o silêncio ao redor do orelhão, o deserto da esquina se agiganta. Patrício pega a caneta e anota o usuário numero 482, ele mesmo, quando chamou a emergência.
Finalmente sente sono, deixa o binóculo cair das mãos e caminha para o quarto, o orelhão já não mais o interessa. Deita e apaga a luz.
Lá fora, na esquina, o orelhão começa a tocar.

Dracena, 24/12/09



Inês e o coelho branco.

Inês queria apenas um pedaço de papel para rabiscar alguns versos, que lhe surgiram de repente, bailando para lá e para cá dentro de sua imaginação, a principio parecia se tratar de um poema sobre um coelho branco e de olhos vermelhos, versos que descreviam a pelagem macia e alva do bicho, o fogo que vazava dos olhos fumegantes da criaturinha. Por isso queria um pedaço de papel, antes que o coelho sumisse, fugisse saltitando, algo, alias, muito comum a essa meiga espécie. Ela pensou consigo mesma.
Procurou dentro da bolsa, mas não encontrou nada, a não ser uma velha caneta azul toda cheia de marcas de dente em uma das extremidades, fez o costumeiro teste na palma da mão, sim a caneta ainda estava funcionando. Só faltava mesmo o tal pedaço de papel, antes que o coelho fugisse e levasse, consigo, para longe a inspiração.
Não era todos os dias que tinha inspiração para um poema àquela hora da manhã, a idéia acabara de lhe surgir ali, bem na frente do balcão da padaria, enquanto abria a boca, salivante, para pedir o sonho, cujo recheio escorria caprichosamente pelas bordas, na vitrina. Estacou-se com o dedo indicador ameaçadoramente apontado em direção ao sonho, enquanto o homem por detrás do balcão a olhava sem nada entender. O que saiu de sua boca, então, não foi nada parecido com o que tinha em mente.
- O senhor poderia me arrumar um pedaço de papel qualquer?
O homem sem entender necas de pitibirecas apontou em direção ao porta guardanapos sobre o balcão.

Ela escrevia poesia, somente as vezes, geralmente, assim, de repente, como de manhã dentro da padaria. Acabou nem mesmo comprando o sonho. Um único guardanapo não foi suficiente, foram necessários dois, três, quatro, ela nem se lembrava mais quantos de fato, afinal o coelho era muito inspirador, tinha muito o que dizer, uma torrente de palavras, o pelo, os olhos, as orelhas, as patas, o nariz, e por ai em diante, versos, versos e mais versos.
Inês tinha um blog, tudo o que escrevia ia parar ali, mas o poema recém escrito lhe deixou com uma pulga atrás da orelha. Não se parecia por demais bobo? O que queria dizer um poema sobre um coelho branco? Quantas pessoas normais escreveriam um poema sobre um coelho branco? Ainda mais em guardanapos de padaria? Aliás, quantas pessoas na sua idade perderiam tempo escrevendo poemas sobre quaisquer coisas que fossem, em guardanapos de padaria ou não? Pensou sobre isso. Olhou o poema. Olhou a página do blog. NOVA POSTAGEM. Postar ou não? Essa era a pergunta que não queria calar dentro da cabeça de Inês.
- Depois decido. – Guardou o poema na gaveta.
Ela tinha apenas 16 anos, as amigas diziam que ela deveria estar mais preocupada em conhecer garotos, do que em escrever poemas, sobre quais temas fossem. Era época de namorar, diziam elas, beijar na boca, ficar, iniciar a vida sexual, blá, blá, blá.... Inês não estava nem um pouco interessada em nada dessas coisas, preferia muito mais perder seu tempo com os livros, poemas, historias de amor, contos, crônicas, sonetos, Fernando Sabino, Vinicius, Drummond, Loyola e por ai afora. A mãe dizia que esse tipo de leitura não era para sua idade, ainda era muito nova, poderia ser corrompida mal influenciada e lá vinha mais blá, blá, blá... Por isso lia escondida, Rimbaud, Verlaine, Willian Blacke, Sade, Sartre... Por isso se sentia boba escrevendo um poema sobre um coelho branco.
Inês não achava os poemas publicados no blog, bons o suficiente para serem de fato chamados de poemas, não eram profundos, nem perturbadores, mas mesmo assim não eram tão ruins ao ponto de falarem sobre coelhos brancos, ou pretos, não haviam coelhos ali. Esses tais poemas já postados versavam sobre coisas mais pertinentes ao amplo universo dos temas que realmente mereciam versos, o amor, a solidão, a dor, a rejeição, a dor de cotovelo, a magoa, a paixão, a descrença, solidão, saudade, amor, duvida... A maioria eram de cunho simbolista, anarquistas, ela não achava nada disso, havia sido o professor que havia dito essas palavras, cunho simbolista. Anarquistas, ela nem mesmo saberia dizer direito o que essas palavras de fato significavam. O professor disse as palavras depois de uma breve e furtiva incursão ao “Blog da Inês” esse é o nome do blog. Ela não soube se ficou feliz ou decepcionada, na verdade ficou quase que indiferente diante dessa observação didática.
Por fim decidiu postar o poema. Não era muito grande, ela digitava rápido. Dali a poucos minutos o poema estaria disponível na web. Somente a noite saberia a reação dos leitores, já que era nesse horário que ela costumava visitar os comentários do dia.
Fechou o blog.
Saiu da net. Desligou o computador.
Voltou correndo à padaria. Ainda estava com vontade de comer aquele sonho.

Irapuru 19/10/09

Penelope, nem tão charmosa

Ficou mais ou menos cinco minutos olhando para o display do celular novo, ele não tocou nesse intervalo, pegou a escova de dentes e caminhou para o banheiro, se olhou no espelho, as espinhas saltavam aqui e acolá em seu rosto, pequenos pontos avermelhados, pequenos vulcões prestes a entrar em erupicão, ela sorriu, gostava de suas espinhas, de suas erupicões cutaneas silenciosas e infaliveis.
Sentiu frio, fechou as janelas, se jogou na cama e se encolheu debaixo dos cobertores, ficou nessa posicão por pelo menos meia hora, até que o telefone tocou.
- Alô?
- Oi Penélope. Você já está pronta? Passo ai daqui a alguns minutos.
- Ainda não, estou esperando.
Se vestiu, rápida, simples, calça jeans, camiseta branca, tênis, amarrou o cadarço, e ficou olhando pela janela, através do vidro. Ouviu a buzina. A mãe estava sentada na frente da Tv, como sempre, novela, filme, programa de autitório, ou outras bobagens quaisquer.
- Xau mãe.
A mãe não respondeu, estava compenetrada demais, cena de beijo, Penélope respirou fundo, deixou os ombros cairem, abriu a porta e saiu.
Carol, Ana Carolina, estava encostada no capô do Ford, jaqueta jeans, botas, batom marrom, cigarro aceso, sorriu. – Vamos lá! - Penelope, sentou-se no banco do carona e travou o cinto de segurança. Carol engatou a marcha e saiu.


Penélope havia lido em algum lugar que 70% dos homens beijavam com os olhos abertos, era isso mesmo que estava vendo, dos vários casais que se beijavam na festa os homens estavam todos de olhos abertos. Penélope pegou o copo, não gostou do gosto, ficou tonta, as luzes piscando aumentavam a sensacão de torpor, o ambiente carregado de tanta fumaça de cigarro fazia seus olhos arderem, mas ninguém mais ao redor parecia sentir isso.
Carol tem fumado muito, Penélope experimentou uma vez, engasgou, tossiu, engasgou de novo e tossiu mais uma meia dúzia de vezes, então desistiu. Foi curtíssima sua vida de fumante, alguns minutos entre engasgadas e tossidas e só, nem mais uma vírgula ou ponto para contar a história.
O pai fumava, um dia saiu para comprar cigarro e até hoje não voltou. Pareceu até que a mãe não se importou, deu com os ombros, quando se deu conta, e voltou para frente da TV, mas mesmo assim até hoje resmunga quando passa comercial de cigarro.
A mãe simplesmente parece habitar um outro universo qualquer, que não esse. Penélope não entende, não sabe o que passa pela cabeça da mãe, não sabe se é feliz, o que pensa, o que deixa de pensar, o que sente, o que deixa de sentir, sempre naquela poltrona, estática, hipnotizada pela programação, distante, ausente como um robô.
O gosto da bebida ainda está na boca.
- Uma água tônica, please! – Pede para o rapaz de gravata por detraz do balcão.
Toma em goles pequenos. Olha ao redor. O que realmente está fazendo ali? Ela não sabe. Nenhuma resposta lhe ocorre. Qual a diferença, realmente, entre estar ali ou na frente da TV como a mãe? Ela também não sabe. Outra vez nada lhe ocorre, nenhuma justificativa. Perguntas, ela tem tantas. “Eu tenho mais de vinte anos e mais de mil perguntas sem resposta!” Resmunga para si mesma a letra da canção.
Por quê veio com Carol? Aliás, onde está Carol? Está em um canto mal iluminado, conversando com um rapaz de cabelos compridos, pretos e lisos. Ambos fumam do mesmo cigarro, uma tragada cada um, parece ensaiado. Meu nome é Ana Carolina, mas me chame de Carol. Se me chamar de Ana Carolina eu tomarei como uma ofença. Foi isso que ela havia dito no primeiro dia de aula, na faculdade. Ah, a faculdade. O vestibular. Penélope suava frio no exame de admissão. Grande bosta. Resmunga agora. Toma o resto da água tônica.
Penélope sente vontade de sair dali, sair correndo, voando, nadando, não sabe direito. Vontade de puxar Carol pelo braço e ir embora. Mas onde está Carol? Sumiu. O rapaz de cabelos longos sumiu. Devem ter sumido juntos, imagina. Compra outra água tônica e sai para a rua. A brisa fria faz com que os minúsculos pêlos de seus braços fiquem completamente arrepiados. A lua está enorme no céu. A lua é um queijo suiço. Leu isso em algum lugar. Ela gosta de ler, sobretudo poesia. Drummond. Vinicius. Verlaine. Rimbaud. Fernando Pessoa. Poema em linha reta. Soneto de Fidelidade... O poeta é um fingidor... De tudo ao meu amor serei atento... poderia estar em casa lendo um bom livro, mas ao contrário disso saiu com Carol. Ah, se arrependimento matasse! Foi deixada para trás, esquecida, trocada por um rapaz de cabelos mais longos que os seus. Ela sorri, acha graça. Caminha devagar. Resolve voltar a pé para casa, afinal, ainda não é tao tarde, ainda há pessoas pelas ruas. Cidade pequena. Mundo pequeno. Ela pensa. A vida é tão pequena! Pensa ainda. “A vida é feita de pequenos nadas que a gente saborei e não dá valor. Escutou no rádio um rap que dizia isso. Penélope cruza os braços e vai caminhado para casa.


Penélope já pensou em ser escritora, uma vez até mesmo escreveu um poema e deixou no profile do Orkut, as pessoas elogiaram, mas ela achou que faltava alguma coisa, um pedaço, um verso, não sabia bem o que era. Durante algum tempo se perguntou que coisa era essa que estava faltando, mas não teve sucesso em sua busca por respostas e então desistiu, editou o profile e apagou o poema.
Era um poema sobre as asas de uma mariposa, que ficava grudada em uma teia de aranha. Onde já se viu poema sobre tal coisa, idéia mais sem pé e nem cabeça, os poemas geralmente falam de amor, paixão, volúpia, dor, e não sobre mariposas e aranhas. Quem quer saber sobre essas coisas?
O celular toca, é Carol, Penélope então se lembra da noite anterior.
- Oi. - Diz no telefone.
- Penélope, sua louca, fiquei te procurando ontem por toda a boate. Por quê não me avissou que ia embora? Blá, blá, blá, blá...
Carol quer sair novamente essa noite, diz. Penélope não está com vontade. Prefere passar a noite lendo, diz para a amiga. Silêncio. Ela vai para a cama. Fica olhando para o teto. O ventilador girando, com passos freneticamente descadenciados, em uma dança solitária e sem sentido algum. Pensa na mariposa grudada na teia da aranha.
Olha para a estante, os CD’s, os livros, as revistas, os objetos, coisas, recordações, lembranças de épocas distantes e distintas, ou de época alguma, o relógio, o abajur, a ampulheta com a areia toda no recipiente de baixo, o tempo estático, desmentindo o balé dos ponteiros do relógio.
Ela fecha os olhos, mas não deixa de pensar na aranha sugando a seiva da mariposa.


Ela se olha no espelho, quase uma duzia de espinhas, amarelinhas, sente gana de explodi-las, mas dizem que se fazer isso seu rosto ficará marcado para sempre. Não acreditava. Mas melhor não arriscar.
A mãe continua sentada na frente da TV. Hipnotizada, escrava da programação. Penélope coloca o leite para ferver, joga chocolate dentro, toma olhando para a mãe.
- Mãe, quer chocolate?
- Não filha, obrigada, depois eu tomo um gole.
Sempre depois, pensa Penélope, pensa apenas, não diz nada, respira fundo, toma o chocolate. A mãe sempre deixando tudo para depois, talvez por isso o pai tenha ido embora e nunca mais tenha dado notícias.
Ela já quase não se lembra de como era o rosto do pai. Sabe que ele tinha bigode. Não há fotos dele na casa. A mãe nunca tirou. Sempre deixou para depois, o pai foi embora, saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou.
Pensa se não é realmente bom estourar as espinhas. Resolve espreme-las. Volta para a frente do espelho e espreme uma por uma. O rosto fica ardendo. Passa um creme. Escova os dentes. Usou aparelho ortodôntico anos, mas os dentes não ficaram tão bons quanto o dentista havia prometido.
Os cabelos estão embaraçados, ela passa a escova, queria que os cabelos fossem lisos, fáceis de pentear, e não como eram, encaracolados e difíceis de escovar, quase nada é, de fato, como ela queria que fosse. Tem andado desanimada, sem saber o que realmente quer da vida. Liga o rádio, Welcome To The Jungle, muda de estacão, propaganda de Super Mercado, desliga, volta a ligar, mais propaganda, dessa vez de uma loja de conveniências qualquer. Tédio. A vida anda sem graça. Começa a ler um livro, o primeiro que encontra, mas não consegue se concentrar, desiste, larga o livro sobre a cama. Fecha os olhos. No escuro tudo o que consegue pensar é na tal aranha sugando a a mariposa. Maldita hora em que escreveu aquele poema.
Outro dia desses falou para Carol o que estava sentindo, o tédio, o desânimo, a apátia, o vazio inexplicavel dentro do peito. A amiga disse apenas.
- Falta de homem, arruma um namorado, boba!
Carol realmente não entendia bulhufas de coisa nenhuma, pensou, tão hipnotizada quando a mãe na frente da Tv, mas essa outra não está na frente da Tv, está com o nariz dentro do mundo, um mundo tão vazio quando a programação da Tv da mãe, mundinho espremido entre uma insignificancia qualquer e outra. Isso, definitivamente, estava cansando Penélope.
Ela pensa no pai, tenta se lembrar de algum outro detalhe além do bigode. Terá ainda bigode? Ela acha bigode uma coisa tão cafona, retrô, o cúmulo do démodè, mas fazer o que, tem gente que não tem noção do ridículo, sorri com esse pensamento, mas não consegue se lembrar do rosto do pai, tudo que ele é dentro de sua memória é um enorme e escuro bigode, relusente, manchado de nicotina, nojento, vai ficando cada vez maior, vai se aproximando dela, de repente a baixo do bigode uma boca enorme, os dentes amarelados pelo cigarro, Penélope está gelada, aquela boca enorme vem em sua direção, pronta para devora-la, ela quer gritar, mas a voz não sai, não consegue se mexer, quer correr, mas as pernas estão imóveis, pesadas feito chumbo.
Ela acorda com o celular tocando. É Carol, resolve que dessa vez não vai atender. Não há razao para atender. Se vira para o lado e fecha novamente os olhos. O som do telefone vai ficando cada fez mais distante. Tudo vai desaparecendo.
Penélope dorme, tão silenciosa e hipnotizada quanto a mãe na frente da Tv.


Dracena, 07 de junho de 2009.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Você também encontra Odair J. Alves no





VISITANTES







Nenhum dos conteúdos deste site pode ser reproduzido total ou parcialmente sem a prévia permissão de Odair J. Alves, estando protegido pela lei.

© Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

E agora José?

Na sua profissão tudo era passageiro demais, voluvel, instável, imaginava Steban, cronista de um jornal popular, escrevia aos domingos, coisas para as pessoas lerem antes do almoço, antes que os parentes começassem a chegar para o churrasco, a macarronada, a bacalhoada, a pizza, etc e tal, então suas palavras tinham que ser ternas, palavras de facil digestão, não queriam palavras indigestas, palavras que causassem enjoos, azias, flautulências, queriam apenas a tênue paz de um domingo fresco, leve, tranquilo, a sombra e com o céu recheado de nuvens azuis. Steban mastiga a ponta do lapis, escreve à mão, sempre foi assim, “o braço é uma extensão do pensamento”, às vezes o lápis era o próprio pensamento, por isso ele o morde tentando arrancar alguma coisa de dentro de seu cérebro negro de grafite.Escreve, as vezes, na maioria das vezes, sobre as celebridades, atores, atrizes, atletas, seus porres, casamentos, divorcios, festas, quem é convidado, quem não é, escandalos, quem está traindo e com quem, gafes, micos, celebridas instantâneas, seus micos, seus desejos e por ai a fora. Às vezes se perde entre tantos encontros e desencontros desses seres, muitos de seus casamentos não duram duas de suas cronicas dominicais.Ele quase nunca vai ao jornal, sempre manda seus textos por fax, não gosta do ambiente da redacão, lhe parece por demais hostil, parece que as pessoas sentes nojo ali, sentadas por detras de seus computadores, asco dele que ainda escreve a lapis, nojo de seu cabelo desgrenhado, Steban odeia pentes e afins, de seu terno marrom que desesperadamente grita para todos que já teve dias bem mellhores, de suas calças, propositalmente, sempre dois numeros maior que sua cintura. Sente que o olham com absoluta descrença, não sabem o que ele é, é como se fosse um alienigena no meio deles, “não é jornalista e também não chega a ser um esritor”, sussurram. Não tem a sobriedade de um jornalista e nem a malicia de um autentico cronista, é, em absoluto, um ser sem rótulos, ou com varios rótulos ilegiveis. Stebam imagina que seja dessa forma que o pintam na redacão nas poucas vezes que ali vai.Morde o lápis com fervor em busca de palavras, mas nada lhe brota. Quer deixar de escrever para o jornal, deixar de escrever frivolidades, “frescuras de celebridades mimadas”, quer, de fato, mergulhar na encruzilhada do cotidiano comum, mergulhar no nonsense da vida real, esquecer essa literatura sem cor e sem cor e sem vida que serve aos outros como aperetivo para o almoço de familia no domingo.Tem mastigado o lapis com mais furia a cada domingo que passa. Pensa em abandonar o jornal antes do proximo almoço em familia, “domingo que vem”, diz para si mesmo, faz semanas que diz isso, mas nunca o faz, acaba mordendo o lapis até que lhe surja uma cronica dominical.Se sente, na verdade, um ser sem identidade, concorda, cada vez mais, com o cochichos que imagina ouvir na redação, sabe que não é mesmo um jornalista, falta-lhe força para tanto, falta-lhe o vigor para correr atras da noticia, esmiuça-la, agarra-la a unha, como fazem os verdadeiros escribas, paladinos da noticia, e por outro lado também não é um escritor, é bem verdade que escreve crônicas, mas isso não quer dizer nada, muitos grandes escritores nunca escreveram um cronica se quer, enquanto dá dentadas no lapis, escreve sobre o dia-a-dia das celebridades, seus romances relampagos, romances que no maximo duram quatro ou cinco de suas cronicas, está cansado, sente uma ojeriza qualquer. Dá numa mordida mais violenta no lapis, sente o dente doendo, o gosto de sangue na boca.
O jornal já foi maior, mais vendido, nos anos sessenta era de esquerda, sofreu com a ditadura, foi massacrado pela censura censura, teve as ports fechadas, os vidros quebrados, os muros pinchados e se conformou, deixou-se vencer por esse mesmo conformismo que a centenas de domingos alimenta a alma de Steban.Steban na verdade nem mesmo se chama assim, é um pseudonimo, acredita que o pseudonimo lhe empresta, mesmo que minima, uma dose desse glamour pequeno burgues que vê na vida das celebridades as quais retrata em sua columa dominical, e tambem uma dose minima de cinismo, que julga necessario a sua atividade de cronista. Seu verdadeiro nome é José, José da Silva, igual a centenas de outros homonimos seus que aos domingos, de domingo a domingo, lê o que ele lhes escreve, antes de se juntarem para o almoço com a familia.Steban caminha pelos corredores da redação, veio pessoalmente entregar sua carta de demissão, bem que poderia ter feito isso também pelo fax, mas no fundo sabe que nem mesmo leriam, corria aé mesmo o risco que a carta fosse publicada por engano, seria até engraçado, sorriu.Ele podia ver os sorrisinhos ironicos ao redor, por toda parte, masculinos, femininos, adolescentes, quase conseguia ouvir seus pensamentos : “Pseudo intectual de merda!” Então o sorriso de Stebam cresceu ainda mais, não se sentia mais intimidado, que rissem a vontade, que pensassem o que que quisessem, ele não estava nem ai, que cochichassem até cair a língua, não estava nem ligando, ajeitou os ombros dentro do terno marrom, ajustou as calças, 2 numeros maiores, rente a linha da cintura, ergueu a cabeça e seguiu adiante.
Odair J. Alves 18.07.09

terça-feira, 24 de junho de 2008

Propaganda de cigarro





Para Marika que me deu a idéia para esse conto.


Edgar tem um metro e setenta e oito, aliás, tudo nele terminava em oito, tem trinta e oito anos, calça trinta e oito, pesa setenta e oito quilos, tem dezoito centímetros de pênis, nasceu no dia oito do mês oito de mil novecentos e setenta e oito. Edgar olhou no relógio eram exatamente oito horas, oito minutos e oito segundos, tudo exato, tudo cronometrado, aquilo só poderia ser um sinal, mas um sinal de que? Edgar é um desses caras que acreditam em sinais. Ele esperava um sinal, talvez de Deus, para dar uma guinada na vida, que aliás não ia muito bem das pernas. Na cidade, quando andava pelas ruas, era olhado, apontado com dedos cínicos, risinhos discretos, tinham-no como um lunático, mas Edgar não era louco, estava apenas esperando um sinal, só não sabia bem para que. Mas tinha certeza que no momento o certo o tal sinal viria, fosse como fosse, fosse pra que fosse.
Edgar olhou para frente antes de atravessar a rua, o sinal estava fechado para os carros, mas mesmo assim ele estava receoso, achava cada vez mais difícil atravessar uma rua, a frota de veículos estava crescendo numa progressão geométrica, enquanto a educação dos motoristas parecia diminuir em uma progressão aritmética cada vez mais ascendente. E pelo fato de estar distraído com os olhos postos na coincidência octaul do mostrador do relógio, era uma vitima fácil para um atropelamento, e então ele iria fazer parte de uma estatística, também cada vez mais cruel, a dos atropelamentos e mortos no transito, todos esses pensamentos passavam pela cabeça de Edgar enquanto atravessava pisando na faixa de pedestres.
Na calçada entrou na banca de revistas, o homem por detrás do balcão usava óculos antigos, camisa antiga, calça antiga de boca de sino, até mesmo a fisionomia do homem parecia ser jurássica, a banca era uma espécie de sebo, revistas e livros tão antigos quanto o próprio vendedor. Edgar sempre entrava ali, gostava de olhar fotos velhas nas revistas encardidas, nostálgicas imagens de um passado já embaçado, o vendedor, Edgar sabia, se chamava Joaquim Silvério, tinha olhos, por detrás das antigas lentes, de mangá, redondos e negros, parecia ver tudo ao redor, Edgar tinha a impressão, às vezes, de que o homem enxergava em preto e branco como nas revistas antigas que vendia. Edgar passeia os olhos pelas encadernações, jornais antigos, notícias que ninguém mais quer saber, revistas com matérias tão antigas quanto o próprio habito de inutilmente folhear revistas inúteis, ele observa, passa os dedos sobre a camada de poeira que cobre algumas das encadernações, tosse, pigarreia alto, o homem o observa em silêncio, nada diz, não pisca os olhos, parece um peixe, Edgar pisa com os pés pesados no assoalho envelhecido, tem a impressão de ouvir os cupins passeando por dentro da madeira, não entende como os cupins ainda não devoraram todos aqueles livros, aquelas fotos todas, imagens desbotadas, fotografias em sépia de dias e momentos que já foram esquecidos, que já não mais interessam a ninguém, a não ser a ele, Edgar, que desesperadamente procura por algum sinal.
A barriga ronca, instintivamente Edgar sabe que é preciso comer alguma coisa, saiu de casa sem o café da manhã, entra na primeira padaria que encontra aberta, uma vitamina e um salgado gorduroso, adora devorar qualquer coisa pingando gordura saturada, a medida que devora o salgado a gordura escorre pelos dedos que ela caprichosamente faz questão de lamber, morde a massa e o queijo se estica, progride para fora do espaço físico do salgado, Edgar se deleita, se enrosca, devora languidamente enquanto sorve a vitamina, seus olhos passeiam pelo cenário, pelas pessoas, homens mulheres, crianças, parece haver indícios de pressa na maioria dos semblantes, observa Edgar, gosta de observar, gosta de descrever mentalmente as pessoas, suas figuras, seus cacoetes, singularidades, hábitos, vícios, observa demoradamente as pessoas, gosta de fazer isso quando está de óculos escuros, ninguém pode flagrar seu olhar nessas situações, uma voyer do cotidiano, é isso que pensa, as vezes, de si mesmo, mas há uma explicação, é para os livros, procura arquétipos, esteriótipos para construir seus personagens, Edgar escreve livros enquanto espera por um sinal. Mastiga devagar, sente o sabor da fritura, tem especial paixão pelas frituras, se orgulha de devora-las e não ter engordado nada nos últimos anos, o corpo sempre esbelto, deduz que seja por causa do exercício, a caminhada diária, a caminhada noturna, a caminhada pelo labirinto da cidade, os becos, as ruas, os cantos, os mais variados templos do povoamento urbano, as coaclas, a periferia, os cantos mais ignóbeis da metrópole sedenta, divaga, enquanto mastiga, enquanto entope-se se gordura saturada.
As pessoas parecem ser todas iguais, diz pra si mesmo, mas no fundo sabe que não são, as nuances humanas variam, caráteres, ideais, os caminhos dividem-se em muitas direções, ele se convence, vendo as pessoas, nem todos os caminhos levam a Roma, tudo flui, havia dito Heráclito, é como um rio, Edgar observa esse rio, seu turbilhão, suas águas que sambam em direção ao grande oceano, a esse oceano Edgar batizou de caos, em certos momentos ele teme esse rio, teme a fúria de suas águas, o escuro abaixo da linha d`água, então Edgar coloca seus óculos Ray-ban e deixa de olhar diretamente para os olhos das pessoas, foge da luz, foge da claridade do sol, foge de si mesmo, e então se esconde no labirinto escuro de sua própria incompreensão e se sente, ali, seguro, calmamente espera pelo sinal que nunca chega.
Edgar mastiga já o segundo salgado, devora a gordura enquanto pensa no livro que está escrevendo, o personagem central é um escritor, em todos os seus livros os personagens centrais são escritores, são misantropos, estão desesperados por alguma busca metafísica e sem sentido algum para os demais humanos que o cercam, todos são homens fornicadores que vêem nas mulheres meros objetos e meios para saciarem sua sanha devoradora e sua libido incontestavelmente irreprimível, suas personagens femininas são frígidas, reprimidas, tolas, fúteis, objetos supérfluos de decoração de interiores, Edgar já ouviu criticas a respeito, até a mãe o critica, sua ex-mulher pediu o divórcio por ter se reconhecido em determinado romance, embora totalmente, segundo a mesma, descaracterizada pela literatura machista, puzilame e chauvinista do marido. Isso parece não incomodar Edgar e nem lhe tirar o apetite enquanto já devora o terceiro pastel, e espera por algum sinal.
Pensa nos olhos de mangá do homem do sebo, vê muitos olhos parecidos dentro da padaria, sorve com força o resto da vitamina, mastiga o último naco do pastel, lambe os dedos, estala a língua num sinal de aprovação da iguaria, olha mais uma vez ao redor, seus olhos então se deparam com o anúncio de cigarro, a carteira aberta, os cigarros se projetando para fora da embalagem tão alvos quantos os dentes dos atores dos comercias de creme dental, a estética do cartaz chama a atenção de Edgar, um cigarro novo, lançamento, aproveite, experimente, diz o cartaz, Edgar não consegue deixar de olhar para aquela maravilha da industria publicitária, a propaganda o encanta, o anestesia, faz dez anos que deixou de fumar, caminha até o vendedor.
- Quero um maço desse cigarro.
- Não sabia que o senhor fumava.
- Parei faz dez anos, mas vou voltar, essa propaganda de me convenceu.


Edgar respira fundo, talvez a propaganda de cigarro fosse o sinal que tanto esperava, um sinal para voltar a fumar. Talvez não, mas tudo é possível, Edgar está absorto em soltar a fumaça para cima, dez anos que já havia esquecido do prazer inebriante desse gesto simples, casual, singelo, diz para si mesmo, a beleza da fumaça se dissolvendo na atmosfera da vida, pensa coisas, filosofa a respeito da brevidade da vida, tão efêmera como a fumaça, tão passageira, breve quando o cigarro queimando entre os dois dedos, fuma um, dois, três, sente-se refeito, sente o pulmão pulsar de uma alegria pueril a muito já esquecida, senta-se relaxado, liga a televisão, um filme idiota, pensa, sobre uma guerra idiota e inútil, desliga, não gosta do canal 13, aliás não gosta de televisão, mas gosta menos ainda do canal 13, treze dá azar, diz para si mesmo, depois ri da própria ingenuidade, fuma devagar, respira devagar, vive devagar, mas estranhamente ainda espera um sinal, olha pela janela e o céu está cinza, cor de chumbo, parece uma ilustração de um livro de Willian Blacke, Edgar gosta desse poeta, leu muito na adolescência, agora quase não lê, agora escreve os próprios livros, olha o céu, veste uma jaqueta de couro, dessas de motoqueiro e sai para a rua.
A rua está deserta, uma ou outra pessoa passando apressada voltando para casa, o caminhão da limpeza pública passa devagar, os homens saltam, correm, vão levando os sacos de lixo e jogando no interior da prensa, Edgar observa, quanto lixo, pra onde vai, de onde vem, fuma, caminha devagar, a fumaça sobe pra além da sua cabeça desafia a gravidade, se desfaz, flui e desaparece, parece que vai chover, ele gosta da chuva, da anestesia que cada gota causa ao corpo, as pequenas explosões contra o asfalto ainda quente, o minúsculo cogumelo da explosão, lembra uma bomba atômica, ele desce a rua, cachorros, gatos, animais totalmente domesticados, e, hostilizados pela flora da metrópole, assim como os homens, que procuram paz em seu próprio habitat, observa os garis que já viram a esquina, seus uniformes, a uniformidade de tudo ao redor, desde a linha sóbria das construções, a arquitetura faraônica, a pluralidade apática de movimentos individuais que se anulam no cotidiano robótico construído pelos homens, a rua se afunila, as árvores fazem sombra nas calçadas, Edgar sente os primeiros pingos da chuva, nostalgia, uma estranha vontade de voltar a lugares que ainda não foi, redescobrir paisagens que nem mesmo chegou a conhecer, saudade de momentos que não viveu, mas sabe que deveria ter vivido, é como se a vida houvesse passado em branco, sente que está envelhecendo e nada fez, que justificasse a existência estéril de trinta e oito anos, talvez por isso seus personagens sejam tão misantropos, pensa, a arte imita a vida, a literatura é um espelho da realidade, equaciona, caminha devagar, entra no primeiro bar aberto que encontra.
Poucas pessoas, em sua maioria homens, barbas por fazer, bebem, o cheiro de álcool conspurca o lugar, duas mulheres encostadas em uma das paredes, mini saias, pernas longas e depiladas, semblantes tristes, parecem olhar para além da linha do horizonte, ele se apóia no balcão, pede uma vodca, uma das mulheres se aproxima, pede que ele lhe pague uma bebida, ele paga, ela chama a amiga, diz se chamar Solange a amiga se chama Silvia, são prostitutas, conversa lentamente, queria ser modelo, a amiga, Silvia quando era criança gostava de bichos, gatos, cachorros, borboletas, certa vez tentou domesticar uma lagartixa, sonhava ser veterinária, ela toma devagar, Edgar lhe oferece cigarro.
- Nunca vi desse cigarro. – Ela diz.
- Pois é, é novo.
A mulher sorri, tem um sorriso bonito, por momentos a tristeza some de seu semblante, Silvia também aceita um cigarro, também sorri, e seu sorriso também é uma pintura boa para decorar interiores, bonito, leve, doce, singelo, seus olhos são azul cobalto, elas conversam entre si, Edgar se perde entre suas palavras e sua mente vaza para fora do bar. Solange o chama, diz alguma coisa, mas ele já não ouve, sai do bar, caminha para a chuva, que já está bem mais forte. Solange grita da porta do bar, ela também caminha na chuva, deixa Silvia para trás, eles andam na chuva em silêncio por alguns minutos, Edgar sente as gotas massageando seu corpo, caminha sem rumo.
- Onde está indo? – Pergunta Solange.
- Não sei, gosto de andar sem rumo.
- Posso ir com você?
- Se quiser.
- Como se chama?
- Edgar.
- O que faz?
- Sou escritor.
- Não é Edgar Alan Poe, não é mesmo? – Ela ri da própria piada.
- Não, acho que não sou.
A chuva aumenta, a água escorre das calçadas, Solange caminha devagar, desafia a enxurrada de cima de seu salto alto, Edgar observa a prostituta, a blusa molhada deixa em evidencia os seios, os bicos intumescidos parecem querer rasgar o tecido, ele sorri, ela se parece com uma das personagens de seus livros, alta, oxigenada, perdida no labirinto da cidade, param sob um toldo, ela prende os cabelos no alto da cabeça, a maquilagem derrete e Edgar pode vê-la como realmente é, linda apesar de triste.
- Por que é tão triste? – Ele pergunta.
- Pelo mesmo motivo que você.
Ela diz simplesmente e então ambos se calam e ficam a observar a chuva.
- Ainda tem cigarro?


Edgar coloca o papel na velha Olivetti, o dia está quente, o sol entra pela janela, Solange anda nua pela sala, tem uma caneca fumegante de café nas mãos.
- Por que você não veste uma roupa, assim me incomoda.
- O que está fazendo?
- Tentando escrever.
Ela se senta no sofá, pernas cruzadas como se estivesse fazendo ioga, os olhos dela se estendem para além da janela aberta, toma café devagar. Olha para Edgar enquanto ele bate no teclado da máquina.
- Eu li um livro seu uma vez.
­- Qual?
- O Homem que bebeu a lua.
- E o que achou?
- Não entendi muito bem.
- Eu também não.
- E por que o escreveu?
- Tinha que escrever alguma coisa, foi o que consegui na época.
- Você fala como se fosse um velho.
- E sou.
- Tem apenas 38 anos.
- Um escritor já nasce velho, agora vai por uma roupa.
- Minha roupa ainda não secou.
- Veste uma minha.
- Você tem calcinha?
- Fica sem calcinha.
Solange sai para o quarto, Edgar olha para a folha em branco, o mesmo desespero de sempre, o papel em branco congelando seus músculos, anestesiando suas reações, freando sua criatividade, obstruindo sua vontade, sempre igual, sempre, desde sempre. Ele acende um cigarro, vai para perto da janela e solta a fumaça lá fora, a fumaça se mistura com a neblina do não-ser e essa por sua vez lhe invade a mente, entra por cada um de seus poros e se apodera de cada um de seus neurônios exaustos, estafados da própria existência, Edgar costuma olhar pela janela, não importa a hora, às vezes deixa a página pela metade na máquina, a frase pelo meio, o parágrafo incompleto e vai para a janela, os seus olhos então se perdem, lânguidos em direção ao horizonte, o firmamento, nesses momentos se torna um dilema, um paradoxo profundo, uma axioma singular, que Edgar tenta desvendar, tenta exauridamente desvendar os mecanismos do horizonte, mas nada é tão incompleto e pleno ao mesmo tempo, então Edgar volta para a máquina, escreve, desesperado, insano, de uma maneira descontrolada, o suor escorre por sua testa desce pelo nariz, pinga no papel, escreve feito um louco, alguém que desesperadamente cava após descobrir que foi sepultado vivo.
Quando Solange volta, ele ainda fuma apoiado na janela, seus olhos ainda estão imersos na mesma paisagem, ela está vestindo um de seus jeans desbotados, uma de suas camisas brancas, que odeia passar a ferro, o cabelo preso em um coque no alto da cabeça, sorri, parece menos tristes.
- Você já leu Alan Poe?

“ I saw thee once – once – years ago:
I must not say how many – but not many
It was a July midnight; and from out…”

Ela recita quase que cantando, ainda tem a caneca fumegante entre as mãos. Pára junto a janela, ao lado de Edgar, olha para o horizonte, na mesma direção do olhar dele.
- O que você está procurando? – Ela pergunta.
- Estou a espera de um sinal. – Ele diz soltando fumaça em direção a ela.
- Está brincando, não é mesmo?
- Não, falo sério.
- Um sinal de que, para que, por que?
- Não sei, apenas espero, sei que ele virá, e então tudo me será esclarecido.
- Você é doido de pedra, isso sim!
- Onde foi que aprendeu a falar inglês?
- Morei dois anos em Londres.
- O que fazia lá?
- O mesmo que faço aqui.
Por instantes Edgar se recorda das cores do cartaz da propaganda do cigarro, a ilustração de onde saltava o maço aberto, com dois cigarros a mostra, um convite irrecusável, o apelo quase que poético, dotado daquela mesma poesia violenta, no entanto doce, de um filme de Tarantino, um deleite quase que inexplicável, misto de sugestão e delírio, devaneio de todos os sentidos culminando em um desejo tão intenso quanto a própria libido insatisfeita, um desejo espasmódico tomando conta da carne, dos órgãos todos, um desejo visceral, embora consciente, de tomar para si cada elemento do cartaz, desejo, fogo, fúria, poesia, idílio, tudo num misto de comoção e volúpia, ardente, intenso, mágico, puro deleite dos sentidos, uma simples propaganda de cigarro, um simples cartaz numa parede de padaria, um anúncio publicitário e nada mais, tão simples e tão complexo, tão banal e tão completo.
Nesse instante Edgar olha para Solange da mesma forma que olhou para o cartaz, sente nela uma complexidade parecida, igual, idêntica, uma mulher linda, um semblante triste, uma vida encoberta, uma incógnita aberta frente a desrazão de tudo que o cerca, que a cerca da mesma forma, a complexidade simples, pueril de um ser humano, em constante inconstância, sabe que somente a mudança é continua, permanente, a metamorfose diária, mas Edgar não quer saber dessa metamorfose, quer, de certa forma, que todos os dias sejam iguais, por isso ele espera um sinal, enquanto esse sinal não vier nada poderá ser mudado, pensa, tudo deverá permanecer em seus devidos lugares, imaculados, estéreis, imóveis, endossando a própria apatia, tão peculiar a tudo e ao próprio Edgar, enquanto o telefone não toca trazendo a noticia que espera, aflito, desde sempre, desde que saiu da casa dos pais, desde que veio coabitar consigo mesmo, com suas dúvidas, seus tormentos, sua velha Olivetti, herança dos dias que ele ainda não compreendeu, enquanto isso espera um sinal, escreve seus livros, lê outros livros, pensa, talvez os outros também esperem um sinal, talvez todos estejam como ele, apenas não digam, não assumam, não gritem como ele faz, Edgar não sabe o que pensar, não sabe o que dizer, não sabe por que uma propaganda de cigarro, uma simples propaganda de cigarro o fez voltar a fumar dez anos depois de ter abandonado o hábito.
Na noite anterior tinham chegado molhados, ela havia tirado a roupa e ficado completamente nua enquanto andava pela sala, contando as vezes que tomara chuva e o quanto isso lhe deixava feliz e viva, era uma desconhecida e estava ali nua, o cabelo pingando água nos móveis, os lábios roxos do frio, tremia um pouco, Edgar fez um café, ela tomou devagar, ele trouxe uísque, Para esquentar! Ele havia dito, ambos tomaram goles pequenos, a bebida descia queimando, um gole, dois três, ela começou a soluçar, o peito subia e descia a cada espasmo, foi então que Edgar notou que tinha seios também lindos, seios de cartão postal, disse para si mesmo, tudo nela era lindo, pensou, tudo digno de cartão postal, ou de close em capa de revista masculina, a barriga, as pernas, os pés, tudo simétrico, tudo na porção exata, depois do uísque vieram os primeiros beijos, as caricias desesperadas acabaram de dissipar os últimos vestígios da friagem da chuva, fizeram amor, ou algo parecido a isso no sofá mesmo, mas durante o ato Edgar só conseguia pensar no cartaz que vira na parede do bar, a simetria, as cores, as curvas, o gosto salgado da pele dela não fazia sentido algum para ele, o que importava era a propaganda, interrompeu o ato e foi fumar encostado na janela, ela veio para junto dele e também acendeu um cigarro e nus fumaram em silêncio, enquanto a chuva ainda caia violentamente lá fora.
- E se o sinal não vier? – Solange pergunta, tirando Edgar de dentro da propaganda de cigarro.
- Ele virá, eu tenho certeza.
Ele acende outro cigarro.
- O que não entendeu no meu livro?
- Não sei explicar, me senti tão perdida quanto nos primeiros capítulos de Teorema do Pasolini, não sei explicar direito.
Ela também acende um cigarro.
- E você o que não entendeu do próprio livro?
- Não entendi nada, não entendi o motivo, a perspectiva, o personagem central era autobiográfico.
- Não achei que houvesse um personagem central.
- Ai está, não havia, mas era para haver, era para estar ali, na frente de todos, escancarado, gritando coisas, bufando de raiva, louco, alucinado, mas não estava, de alguma forma, se omitiu, eu me omiti, me acovardei, me escondia em capítulos vazios e personagens patéticos, uma trama sem força, um drama sem caráter, um verdadeiro bufão. Não sei se é capaz de me entender.
- Não faz sentido.
- Realmente nada faz sentido, nada mesmo, veja, a gente nem mesmo se conhece e a minutos atrás você estava nua andando pelo meu apartamento, uma completa desconhecida, mas isso não fazia diferença, por que nada faz sentido, nada importa, por isso que eu estou a espera de um sinal, alguma coisa que me arraste para fora desse universo caótico e sem sentido, alguma coisa que me jogue uma dose, mesmo me mínima, de lucidez, entende?
- Você é doido de pedra.
- Talvez essa seja a explicação.


Solange foi embora às três horas da tarde, mas antes disso fizeram sexo mais uma vez, dessa fez debaixo do chuveiro, ela disse que voltaria qualquer dia desses, pegou suas roupas que já estavam secas e saiu deixando a porta aberta, Edgar acendeu mais um cigarro e ficou mais uma vez fumando próximo a janela, de onde viu Solange dobrar a esquina e sumir, o tempo mais uma vez estava nublado, tudo ao redor de Edgar parecia um filme velho, um desfile démodé, uma coisa qualquer parecida com pão embolorado, ele fumava devagar, olhava para o horizonte, ficou assim muitos minutos antes de se sentar de frente a velha Olivetti.
O telefone toca, Edgar se levanta em movimentos lentos, parece estar com sono, a garganta está seca, raspando, está resfriado, constata, foi a chuva da noite anterior, pega o telefone, com uma certa dose de mal humor.
-Alô!
Silêncio do outro lado, ninguém responde, o telefone nem mesmo chia, deve estar com problema, pensa, essas concessionárias não trabalham direito, oferecem um serviço de quinta, incompetentes, pragueja para as paredes com a garganta já ardendo, procura pela garrafa de uísque da véspera, está pela metade, toma um gole, o telefone toca de novo, ele atende e o silêncio se repete, ele resmunga, repete o mesmo protesto contra as empresas da telefonia, mal diz as privatizações dos serviços públicos, pensa em escrever algo a respeito, talvez uma carta mal educada as autoridades competentes, ou incompetentes, ele já não sabe, a garganta arde, se senta de novo em frente a máquina, bate no teclado, a princípio lentamente, tentando captura um fio tênue de inspiração que de todas as formas quer escapar de seu alcance, vai aumentando o ritmo e sovando o teclado, como havia feito com Solange sofá, no principio lentamente enquanto ele balbuciava palavras em inglês, desconexas, algumas ele não compreendia, a medida que ele intensificava seus movimentos e os corpos se molhavam de suor essas palavras pareciam não mais ser inglês, talvez uma língua escandinava qualquer, mas ele não sabia, desconhecia tais idiomas, talvez fosse algum idioma báltico, mas ele não sabia qual a diferença, mas mesmo assim não estava preocupado, entendia o que ela dizia em seu misto de prazer e agonia, sabia muito bem, ela falava do cigarro, repetia as palavras do anúncio, as mesmas palavras que ele não compreendeu por completo o sentido, mas que o fascinaram a ponto de faze-lo acender um cigarro dez anos depois, então ele se enojou de tudo aquilo, do ato mecânico do sexo consensual no sofá da sala, se cansou de toda aquela umidade pegajosa da boceta de Solange, da própria violência inconstante de se seu membro enlouquecido, nada mais fazia sentido, a única coisa que importava era o cartaz pregado na parede da padaria, sentiu uma vontade insuportável de acender um cigarro, foi então que sai de sobre a prostituta e foi em busca do maço de cigarros.
O telefone toca novamente, Edgar espera, ele continua a tocar, uma, duas, três, quatro vezes, na quinta vez ele retira o aparelho, resmunga mal humorado.
- Que merda de telefone.
Ainda silêncio do outro lado, ele bate o aparelho com raiva devolvendo- o ao gancho, silêncio por todo o apartamento, ele volta para a Olivetti, e então seu matraquear se faz supremo, incontestável, é como uma sinfonia de metais, Edgar parece estar enfurecido. A pela janela Edgar constata que já é noite, o estomago dá sinais de vida, movimentos peristálticos, chiados em suas entranhas, mistérios que somente os biólogos se atrevem a presentear com nomenclaturas complicadas e cheias de w e y, fome, a barriga ronca alheia a noite lá fora, alheia ao matraquear da máquina, alheia a vontade de Edgar, um sinal, sinal de que ele precisa urgentemente comer alguma coisa. Ele mais uma vez apanha a jaqueta de motoqueiro e sai para a rua. Faz frio, inverno, as noites tem sido frias e as madrugadas mais ainda, Edgar gosta do frio, queria morar na Europa, ver a neve caindo, vê-la da janela de seu apartamento, vê-la forrando o chão, atrapalhando o transito, fazendo a cidade parar, irritando as pessoas, queria vê-la caída nas calçadas, as crianças brincando de guerra, construindo bonecos com braços de gravetos e nariz de cenoura como nos filmes dublados, horríveis e mal feitos, que passam a tarde no canal 13 e em todos os outros canais, a neve é um sonho, neve no Brasil não tem graça é apenas gelo, neve é na Europa, há o mito, a idéia construída pelo cinema, distribuída em longos rolos enlatados, exibidos em telas brancas, alvas, pálidas, uma ilusão maravilhosa, a neve é mais branca no cinema, é mais branca na Europa, até mesmo a neve no Brasil é de segunda, Edgar caminha com as mãos nos bolsos, os dedos estão gelados, os lábios estão avermelhados, ele anda, poucos estabelecimentos abertos, a noite se afunila e vai ficando cada vez mais fria, na calçada rapazes e moças, calças largas, seguram skate`s, entram em uma Lan House, a grande febre do momento, os jogos eletrônicos, outra imitação dos europeus, o país se rende a Internet, salas de bate papo, relacionamentos virtuais, sexo virtual, compras virtuais, vende-se e compra-se tudo, Edgar respira fundo, aperta todos dedos dentro dos bolsos, entra na Lan House, olha as telas, policromacia retumbante, jogos, Orkut, essa idéia de Orkut Buyukkokten, com um nome desse Edgar se trancaria em um quarto escuro e imploraria por uma morte rápida e sem dor, no entanto o turco fez pior, criou um quarto escuro, onde todos querem entrar, querem se encontrar, se descobrir, Edgar pede um café expresso.
- Não temos café. – Diz uma moça loira de olhos azuis, parece uma adolescente figurinista de um filme europeu qualquer, alemão talvez, até as loiras daqui são menos pálidas que as originais, pensa Edgar, mas não há tempo para pensar mais nada, a moça aguarda uma reação de Edgar.
- Mas lá fora está escrito Syber Café. - É tudo que Edgar consegue dizer.
- É somente uma expressão, senhor. – A moça parece ter um sorriso irônico pendurado nos cantos da boca.
- Obrigado. – Diz ele e sai para o frio da rua.
Edgar viu a ironia na frase da menina. É somente uma expressão, senhor. Até mesmo a nossa ironia é falsificada, constata Edgar mais uma vez tremendo de frio.



A porta do apartamento está aberta, Edgar entra, fecha a porta, tranca o frio do lado de fora, Solange está sentada num canto do sofá, mas uma vez na posição lótus, toma novamente café em uma xícara fumegante, olha para ele e oferece.
- Quer café?
- Queria um expresso, mas não tinha.
- Pois é, café expresso dá pesadelos. – Ela sorri.
- Como foi que entrou?
- A porta estava aberta. Perigoso deixar a porta aberta assim poderia entrar algum ladrão.
- Devo ter esquecido, ando com a cabeça meio fora do lugar.
- Com certeza, estava lá fora procurando o tal sinal?
- Não, estava procurando um café expresso.
Vou buscar café pra você, ela se levanta e Edgar se senta, sente um desconforto, parece ter sentado em um tijolo, se ergue e encontra o controle remoto, aponta para a TV aperta o power, a TV se acende, Edgar procura alguma coisa pra assistir, para em um jogo de vôlei, Brasil e Rússia, vôlei masculino, pára, põem-se assistir o jogo. Solange volta com o café, lhe estende, ele pega, toma, quente, amargo, forte, bem diferente do café expresso que queria tomar.
- O Brasil está ganhando?
- Sim, mas estou torcendo para a Rússia?
- Por que toda essa falta de patriotismo?
- Me diga o nome de um grande escritor brasileiro e eu te direi dez russos.
- Só por causa disso?
- Não lhe parece o bastante?
- Você é mesmo doido de pedra.
O Brasil ganha o jogo, começa a passar um filme em preto e brando, Solange cochila, escorrega para o ombro de Edgar, ele se levanta e deixa o sofá todo para ela, vai se sentar na frente da máquina, contempla a folha datilografa pela metade, se lembra mais uma vez do comercial de cigarro, se sente triste, lá fora começa a chover, a principio uma garoa, depois o vento começa a esmurrar a janela, nem sinal de Solange sair do transe do sono, dorme profundamente, Edgar volta para o texto, acende mais um cigarro, é o penúltimo do maço, tem vontade de sair para a rua para comprar mais, mas a chuva intimida seus ímpetos, ele está cansado, também está com sono, se levanta, pega Solange nos braços e a leva para a cama, ela não acorda, na cama ela se vira para o outro lado, se encolhe, junta as mãos entre as pernas, parece querer voltar a posição fetal, Edgar apaga a luz e fica olhando a chuva cair lá fora, o sono vem vindo aos poucos, ele tenta se manter acordado, fuma mais um cigarro, amassa o maço, joga-o contra a parede, o sono vai o dominado devagar, se deita, olha para o teto, tem vontade de ficar acordado, mas os olhos vão se fechando devagar, a noite vai ficando mais escura e o ruído da chuva mais fraco, Edgar dorme.
Não será essa noite que ele encontrará o que procura.

Odair J. Alves,
Junqueirópolis, 23 de junho de 2008









quarta-feira, 4 de junho de 2008

Peço perdão

Prepare-se para presenciar palavras
pronunciadas pelo pretencioso poeta;
poucas preciso para preparar-te
pequenos, precários, pitorescos poemas.

Primeiro peço perdão por pretender
profanar-te, (Pretendo presentear-te
pequena princesa!) Poeticamente peço
para perdoar-me pela pouca poesia!

Posso parecer pudico, pouco poético
pateticamente parvo, pueril, principalmente
pretencioso por proferir-te pálidas palavras!

Portanto pretendo prematuramente partir,
pois, penosamente, posso prejudicar-te por
passionalmente possuir profunda paixão!

Teu corpo

Teu corpo é a grande cidade;
meu pesadelo a arquitetônico,
trás-me gotas de infelicidade
em teu veloz voou supersônico...

Dá-me nacos de imoralidade
num estado que lhe é lacônico
vejo em teus becos a crueldade
por meus olhos de daltônico...

Sobre tuas antenas parabólicas
vejo minha utópica sanidade
escorrendo por tuas enxurradas...

E abraçado por nauseas e cólicas,
vejo juntar-se à minha verdade
ao lixo jogado nas calçadas!

Chamam de amor!

É inutil o dom da palavra
quando a língua se trava
e é no papel que a minha se lavra
para dizer o que em mim se crava!

Elas vem e vão feito o vento
É dificil a uma única prender
e com ela descrever o sentimento
que me toma o corpo ao te ver!

Uma espécie de eterna euforia
cada raio de luz vira um feixe de mágia,
cada cor ganha cheiro de poesia!

Ao resto do mundo ganho torpor
fica impossivel o a razão se impor;
Deve ser isso que chamam de amor!

Você precisa saber

Você precisa saber que o tempo passou,
saber que a chama crua se apagou
e uma penumbra suave foi o que restou
de tudo aquilo que o homem amou...

Você precisa saber que já é tarde,
saber que a mesma chama já não arde,
e por mais que a solidão se retarde
nos alcançcará mais cedo ou mais tarde...

Você precisa saber que somos as flores
insanas e orfãs que o insano tempo murchou,
despetalando todos os nossos amores...

Você precisa saber que o tempo é um trator
que esmaga o que o coração um dia plantou
e arranca pela raiz até mesmo o próprio amor!

Protesto afabético

A mores ardem agora! Ardem ainda
B uscando brechas, bifurcações,
D onde ...(duram)..doem duras
E estranhas e estáticas
F eridas! Frágil; felicidade finda-s!
G ananciosos germinam
H olocaustos humanos! Homens hoje
I nvadem ídilios, ignoram ideologias.
J untam-se jovens' em juventude
Loucos, lamoriosos, laconicos, loucos...levam longe
M uitos mitos, mas
N ão negam-se nunca! Nascem
O givas, orgias, operários,
P oetas! Proletariado protesta;
Q ueixam-se que querem
R eajustes razoáveis;
"S omos só serviçais sem salários!"
"T odos tem trabalho! Todos!"
U ivam urubus.
V enham, vamos ver, viver, venham...
X iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Z uou!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Wisk com Walt Whitman

Para Darci, quem sem querer me deu a idéia para esse conto.


1

Não se soube como se deu o golpe. O fato é que às duas horas da tarde o céu estava escuro, a fumaça escura subia de algumas chaminés do centro da cidade, rolos escuros e grossos imergiam de sobre os prédios enormes e geminados. Soldados com fardas de gala, manchadas de suor e sangue, tanques, generais de patentes e medalhas cravadas nos peitos estufados, todos cheios de uma soberba cínica, olhares de aves de rapina, olhares imergindo por detrás de enormes óculos escuros, as medalhas se chocavam umas contra as outras, dispersavam sons metálicos. Tantos generais juntos, que aquilo parecia ser uma orquestra de metais se apresentando ao ar livre.
Não se soube o motivo do golpe ou quem havia sido deposto. O que havia eram boatos correndo aqui e acolá, diziam coisas, enumeravam detalhes sórdidos sobre como o exército invadiu o parlamento, muita gente não sabia que havia no país um parlamento, e muitos ainda não faziam a menor idéia do que viria, de fato, a ser um parlamento, e então o assunto recaia para o âmbito da semântica, da história da política, Cidades- Estados, Estados democráticos. O que é democracia? Alguns questionavam. Estado teocrático. O que é teocracia. Outros indagavam. Cada um dizia uma coisa, perguntava uma coisa, afirmava outra coisa, e essa mesma coisa em seguida era refutada por alguma observação mais perspicaz, vinda de alguma outra boca mais bem informada sobre os tramites da política, e essa nova informação por sua vez encontrava um ouvido um pouco menos receptivo a novos conceitos, ainda mais quando esses vinham acompanhados de uma meia dúzia de palavras desconhecidas e impronunciáveis.
O fato é que acordei no meio da tarde ouvido os tambores, imaginei que fossem tambores, mas eram os soldados marchando nas ruas, bombas de efeito moral, as pessoas correndo para todos os lados, ninguém parecia saber em que direção realmente correr, trombavam umas nas outras, tropeçavam nas coisas, se chocavam contra os muros, uma balburdia sem igual. Ninguém parecia saber o que estava havendo. Foi então que olhei pela janela e vi os rolos negros de fumaça escurecendo o céu, parecia cena de filme de guerra, no entanto, parecia que o filme estava sendo rodado em película já gasta demais. Olhei e não entendi. Quis perguntar a alguém, mas não havia como, eu morava no décimo segundo andar de um apartamento de um dormitório, e morava sozinho. Não havia como perguntar. Só se perguntasse para as paredes ou para os livros, mas algo me dizia que eles não responderiam, e se por algum fato inexplicável o fizessem haveria uma confusão dos diabos, já que eram muitos os títulos dispostos pelas estantes.
Liguei o rádio e inexplicavelmente ele estava mudo, um aparelho comumente tão tagarela mudo em um momento crucial onde eu precisava desesperadamente ouvir alguma coisa que explicasse o que meus olhos testemunhavam através da janela. Estava fora da tomada. Coloquei na tomada e a mesma voz que eu evitava todas as manhas entrou apartamento adentro, aquela voz que dava sempre as mesmas notícias velhas, gastas, editadas por redatores relapsos e mal pagos, notícias nas quais eu já não acreditava a décadas, a voz que anunciava sempre as mesmas canções dotadas de uma melodia que costumava me embrulhar o estômago. Propaganda de plano de saúde, envelheça e morra feliz, ou alguma coisa do gênero, sugeria o locutor, comercial de refrigerante, dava para ouvir o som sampleado das bolinhas subindo dentro do copo, eu pelos menos eu acreditava que era isso, mas bem poderia num ser, a muito tempo as coisas haviam deixado de serem o que pareciam. O locutor não sabia o que estava acontecendo, no entanto os rolos de fumaça continuavam a subir rumo ao céu. Era preciso descobrir o que estava havendo lá fora.
Assim que pisei na calçada um homem pisou no meu pé. Desci com chinelos de dedo, feitas de um material sintético qualquer que ninguém sabia bem do que era feito, no entanto todos usavam, inclusive eu, não havia escolha. O homem me olhou, olhos esbugalhados, cheios de um terror, que era metade cômico, metade trágico, sua pupila parecia se derreter como uma tela idiota qualquer de Salvador Dali, olhou para todos os lados antes de tirar sua bota enorme, também feita de uma fibra sintética qualquer e anônima, de cima de meu pé. Segurou-me pela gola da camisa, tecido sintético aliás, e sussurrou nos meus ouvidos.
- Você tem que ir também. Vamos estar todos lá.
O homem olhava para todos os lados, como se seu pescoço fosse dotado de um mecanismo qualquer que o permitisse move-lo 360 graus. Estava com uma pressa na voz, e falava cada vez mais baixo.
- Ir onde? Quem vai estar aonde? O que está acontecendo?
- Todo mundo no bar do Whitman. Toda a resistência estará la. Esteja também a meia noite.
- Que resistência? Do que está falando?
- Aconteceu hoje, às oito horas, um golpe de Estado, estamos em uma nova ditadura. Onde esteve nessa manhã?
- Quem deu o golpe?
- Não sei. Ninguém sabe. Somente boatos. Esperamos você no bar.
O homem diz essas ultimas palavras e então sai correndo em direção a esquina mais próxima. Some. Então isso era tudo? Havia um golpe, mas ninguém sabia quem o dera, e que governo fora deposto, já que ninguém sabia de verdade quem era que governava o país, ninguém sabia quem mandava em quem, mas mesmo assim todos obedeciam a esse líder invisível. Foi então que notei os soldados, percebi a estranha marcha dos generais, vi seus peitos cheios de medalhas, ganhas nas guerras, mas que guerras? O país a mais de vinte anos não se envolvia em guerras, pelos menos ninguém nunca soube, nenhuma revolta, nada, não havia protestos, nenhuma rebelião, não sabiam contra quem se rebelar, contra o que protestar, no começo bem que tentaram, mas com o tempo tudo ficou sem sentido, já não havia tempo, faltava vontade, o país a décadas estava em coma, e agora isso, um golpe de Estado.
Que resistência o homem falava? Parecia se tratar de um lunático qualquer, mas ultimamente nada era o que parecia ser. Uma bomba explodiu perto de meu pé. Resolvi subir e me refugiar, aquela calçada não parecia ser um lugar seguro. As horas foram se arrastando e nada dos rolos de fumaça diminuírem. Nada do barulho cessar. Nada dos soldados deixarem de correr para lá e para cá. Nada dos generais pararem de marchar. A noite foi caindo e nada mudava. Eu pensava no homem, na história da reunião no bar do tal Whitman.


2


É verdade que o país parecia estar em coma, mas nem sempre fora assim. Houve um período de estrema euforia, a mais ou menos trinta anos. Por ocasião da grande Unificação. Todos os partidos políticos foram unificados em um único. Houve um homem, um homem de barbas longas e brancas. Um novo Antonio Conselheiro, diziam os saudosistas e conhecedores da historia, um novo Moises disseram os mais crédulos, no entanto como o Moises da fabula bíblica esse também não foi capaz de guiar seu povo até a terra prometida, disseram outras coisas também, mas a maioria não disse nada, apenas assistiu mumificada a transição do governo para as mãos desse homem. E então começou tudo. Depois da unificação vieram os primeiros decretos e leis, as medidas anticonstitucionais, foram assim chamadas até o dia que e constituição foi queimada pelo governo, na frente do Parlamento.
Depois da constituição queimaram a bíblia, os livros religiosos, a indumentária dos padres, dos pastores, incendiaram as igrejas, os templos, a sinagogas, profanaram os altares. Imediatamente a esse período veio uma violenta onda de choque com a policia, manifestações, piquetes, depois apenas silencio, o país respirou um período de apatia, anestesia, o ar parecia estar rarefeito a cada dia, as pessoas andavam sem pressa, era como se não houvesse mais aonde ir, e não deixava de ser verdade, os cinemas foram fechados, as portas lacradas, as bibliotecas transformadas em sedes provisórias para instituições recém criadas pelo governo, para propósitos desconhecidos, as escolas tornaram-se lugares perigosos, professores desapareceram misteriosamente, epidemias, doenças desconhecidas começaram a surgir, curas milagrosas descobertas pelos médicos do governo, a população estava em silêncio, se acomodava, se acostuma, respirava o novo ar, espiada calada o novo horizonte.
As emissoras de televisão e rádio foram tornadas propriedades do governo e uma nova programação foi instituída, obrigatória, muitas músicas foram proibidas, cantores, compositores, foram presos, exilados, deportados, mortos, ou simplesmente desaparecerem do dia para a noite sem deixar rastro ou paradeiro. Foi então que começaram a proibir os livros. Foi vinculada uma lista, nas rádios, na TV governo, afixada nos postes, estava nas paredes dos poucos bares que ainda funcionavam, a lista era encabeçada por Walt Whitman, e centenas de outros nomes se seguiam ao dele.
Depois desse episódio, houve um silêncio neofragico, onde nada acontecia, ninguém mais sabia quem era que estava no poder, se o homem de longas barbas brancas, já que ele nunca mais foi visto. Apenas o silêncio respondia as perguntas daqueles poucos que ainda tinham forças para indagar algo. E então hoje quando acordei tudo estava diferente. Havia soldados nas ruas. Generais saindo de sabe Deus onde e marchando pelas ruas com suas reluzentes medalhas no peito, a incompreensível fumaça saindo e se condensando por cimas dos edifícios do centro da cidade.
Olho pela janela e a fumaça ainda está lá, ainda existem soldados nas ruas, ninguém anda além deles e suas fardas de gala, o escuro já embaça minha visão, os generais se foram, levaram suas medalhas para algum outro lugar, os tanques estão parados, parece que prevalece um estranho e não anunciado toque de recolher, um sinal, prelúdio de que algo está prestes a acontecer.
Quase meia noite. Desço para a rua.

3


“WHISPERS OF HEAVENLY DEATH.” São essas as palavras pinchadas nas ruas, nos muros brancos, recém pintados, ainda cheiram a cal, a letra é bonita, os traços são vigorosos, firmes, denotam capricho, mas se percebe que foram escritas às pressas. Caminho rua acima, me esquivo da vista dos soldados, o silêncio só é conspurcado por algumas sirenes ao longe de quando em quando. Vou galgando as calçadas e avanço dentro da noite.
- Lazaro! – Ouço alguém chamar de dentro de uma viela escura.
Um homem negro, ombros enormes e cabelos brancos, feito um enorme e desproporcional chumaço de algodão imerge da escuridão.
- Venha Lazaro, eu estava o esperando.
- Quem é você?
- Sou um dos nossos.
Eu fico olhando, perplexo, não entendo nada.
- E quem somos nós?
- Somos a resistência. Não se lembra de nós, não é mesmo?
- Não, por quê, deveria?
- Eles fizeram uma lavagem cerebral em você, fizeram isso com a maioria dos intelectuais do antigo país que nós éramos.
- O que está dizendo não faz sentido.
- Não viu a frase pinchada no muro?
- Sim. “Whispers of heavenly death.” E o que significa?
- Era o lema de nossa organização. O lema da resistência. O nome da célebre obra de Walt Whitman. Fizeram lavagem cerebral com você, por isso não se lembra. O governo do Papa de Barbas Brancas lavou sua mente.
- Papa de Barbas Brancas?
- Sim aquela revolução a trinta anos atrás foi uma conspiração da igreja.
- Mas padres foram mortos, igrejas destruídas.
- Isso é no que fizeram você acreditar. Essa não é a verdade. Venha comigo e veja com seus próprios olhos.
- E por que está me chamando de Lazaro?
- Por que esse é o seu nome.
- Não, meu nome é Andréas.
- Isso foi o que te contaram durante a Unificação.
- Se está dizendo a verdade, quem sou eu de fato?
- Você é Lazaro D`brael, o poeta.
- Nunca ouvi falar desse poeta.
- Sua obra foi queimada. Foi uma das primeiras a serem destruídas, sua poesia tinha claras influências de Whitman, e isso eles não poderiam admitir.
- Eles quem? Admitir o que? Eu poeta? Deve haver algum engano.
- Sim há um grande engano. Sua vida durantes os últimos quase trinta anos foi um grande engano. Venha comigo.
Saímos do beco e subimos a rua. O negro tira um maço de cigarros do bolso da camisa?
- Ainda fuma?
- Por que eu fumava?
- Fumava muito.
- Quem diria.
- Sua filha nos contou muito sobre você.
- Eu tenho uma filha?
- Sim. Rita D`brael, faz versos como os seus, o mesmo estilo, cresceu lendo seus livros.
- Eu escrevi livros?
- Vários, era um dos maiores poetas do país, antes da grande Bestificação e da ascensão do Papa de Barbas Brancas ao poder.
- Bestificação?
- É assim que chamamos o período da grande Unificação
Essa conversa, vai me deixando tonto, a coisas não fazem o menor sentido. Nada se encaixa.
- Por que está me contando essas coisas?
- Nós descobrimos um processo para reverter a lavagem cerebral que o Estado fez. São milhares de pessoas que não se lembram de quem eram, tiveram a vida reescrita nos porões do governo, somente por que protestaram. Foi então que a euforia acabou, os protestos foram contidos, as vozes abafadas, os cérebros lavados e as vontades totalmente domadas.
- Isso é loucura. Não tem lógica.
- Foi o que muitos disseram, antes de saber a verdade.
- E qual é a verdade?
- Você vai descobrir ainda essa noite. Já estamos perto.
Ponho-me a seguir o homem na penumbra, os postes estão apagados, ruas que não conheço, vestígios antigos das antigas luminárias de gás néon, é como se uma cidade pré-histórica estive cravada no coração da cidade reinventada pela grande Unificação, o homem assovia uma canção antiga, proibida a muitos anos, assovia com uma alegria indescritível, está usando chinelos de couro curtido, camisa de algodão, coisas que eu nem mesmo sabia que ainda existiam, as industrias haviam parado de fabricar esses artigos, agora tudo era sintético, tudo era programado, o homem caminhava e eu o seguia, entravamos por ruas cada vez mais antigas e estreitas, cada vez mais mal iluminadas, a sujeira e o cheiro desagradável reinavam absolutos, bem diferente das cores e tons assépticos do coração da cidade, dos cenários das novelas da programação do canal do governo, dos outdoor`s, das revistas impressas pela Editora Oficial, bem diferente daquilo que as crianças aprendiam nos livros de história.

4


O bar de Whitman, ao contrário de tudo o que vi pelo caminho, cheio de botecos encardidos iluminados com lâmpadas incandescentes amarelas, outra coisa que eu nunca mais havia visto, essas tais lâmpadas. O bar era enorme e aconchegante, mesas em tampo de madeira, espreguiçadeiras, cadeiras de balanço, tabuleiros de jogos de xadrez, dama, batalha naval, jogos de estratégia, quase todos já extintos do imaginário coletivo, ou pelo menos de meu imaginário, e de minha vida. Ao fundo, em uma parede pintada em tom pastel, havia uma foto de corpo inteiro e em tamanho natural de Walt Whitman, foi então que entendi o motivo de se referirem ao bar como o bar de Whitman.
Ninguém, além de mim, parece estar vestindo tecidos sintéticos, todas as roupas são leves e em tons claros, chinelos de dedos, o cenário me faz lembrar o já esquecido movimento hippe, todos bebem wisk, conversam sobre poesia, filosofia e sobretudo política, estão ao mesmo tempo, que eufóricos, assustados com o golpe, não consigo entender muito bem o que dizem. Em um pequeno palco ao fundo, a direita do retrato do poeta inglês, um poeta lê para uma pequena platéia, seus últimos versos livres, em um poema sobre o golpe, não entendo muito bem, algumas palavras apenas, o suficiente para que eu perceba o tema.
O negro enorme que me trouxe diz de chamar Walt em homenagem ao poeta, me serve uma generosa dose de wisk, e passa a me contar como se deu o golpe, a lavagem cerebral, o governo do Papa de Barbas Brancas, fala sobre mim, meus versos, minha poesia, meus livros proibidos, caçados, queimados me praça publica, a minha prisão, o tempo em que fiquei desaparecido, e então meu reaparecimento, sempre vigiado, observado de longe, guardado dentro de uma redoma, me mostra alguns dos livros que escrevi, mas nada é capaz de me devolver lembrança alguma, e na maior parte do tempo eu desconfio estar sendo vitima de uma espécie de engano ou engodo, não sei o que pensar, as coisas parecem não fazer sentido algum, os fatos embora se encaixem cronologicamente, logicamente não funcionam, o que ele me pinta é algo semelhante ao holocausto nazista, custo a acreditar.
Walt lê para mim versos que diz serem de minha autoria, sobe no palco.
- Senhoras e senhores, temos nessa noite a honra da presença do grande poeta Lazaro D`brael, a muito tempo esquecido de si mesmo, de seus versos, de suas raízes, de sua poesia, de sua história, de sua infelicidade e felicidade, mas que essa noite, senhoras e senhoras, brindará-nos com a majestade de seu verso livre.
Ouço aplausos e pessoas olhando para mim, alguns vem me cumprimentar, dizem terem lido minha obra, falam de minha influência para toda a poesia dos últimos trintas anos. Eu me sinto meio tonto. Sinto vontade de sair correndo dali e voltar para meu mundinho sintético, asséptico, bem iluminado, onde eu sou eu mesmo e não a sombra de um velho poeta morto. As conversas fervilham ao meu redor. Me sinto preso dentro de um filme retrô, démodé, antigo e anacrônico, não sei o que fazer com as mãos e por vezes seguidas o copo quase que cai, acendo um cigarro para que possa manter as duas mãos ocupadas.
Sei tragar, parece ser uma evidência de que eu realmente fumara em alguma época da vida, mas não me lembro. Talvez Walt tenha alguma razão, mas mesmo assim me parece ser apenas uma coincidência inexplicável, penso enquanto trago profundamente e sinto a fumaça invadindo meu pulmão.
Caminho para o balcão, tomo mais uma dose, fico olhando para o retrato de Walt Whitman, esperando que ele me de alguma resposta, me aponte alguma solução, mas ele não se move, seus olhos estão longe, suas barbas enormes e brancas caem em direção ao peito, sua pele está enrugada nas testa, parece ter sido fotografado em momento de intensa meditação, contempla alguma coisa que eu jamais saberei o que era.
- Pai?
Ouço uma voz suave, tenho a impressão de já ter ouvido-a em algum lugar. Me viro e me deparo com uma moça alta, cabelos negros, olhos cor de ardósia, é Rita, minha filha. De repente me vem um Flesch, eu a vejo engatinhando pelo apartamento.
Rita caminha em minha direção, me abraça.
Então todas lembranças começam a surgir.

Odair J. Alves
Junqueirópolis, 20 de maio de 2008