sábado, 31 de maio de 2008

Paul, o poeta louco





NO HOSPITAL

Quando dr. William conheceu Paul pessoalmente ele já não era mais o poeta louco, sim o poeta morto. Esteve assim, morto, por alguns segundos, enquanto dr. Willian tentava o ressuscitar, lhe dando choques no peito. Uma tentativa, duas, três e nada de Paul, o famoso poeta, ressuscitar, foi então, que no quarto choque a vida mais uma vez saltou dos olhos do poeta.
Paul abriu os olhos de uma maneira estranha, foi o que pensou dr. Willian, estava acostumado a fazer aquilo, trazer pessoas de volta a vida, e nunca havia visto alguém abrir os olhos daquele jeito. Foi apenas uma observação, uma anotação mental que dr. Willian fez. Pronto Paul estava vivo, os repórteres estavam lá fora, provavelmente fleches pipocavam em todas as direções. Paul, o artista mais conhecido do país, nem sempre pela poesia, mas pela loucura, Paul o poeta louco.
Dr. Willian não entendia o que levava um homem como aquele a tentar o suicídio, mas não cabia a ele, simples e ingênuo médico, imaginava, compreender loucuras de cabeça de poeta, ainda se fosse psicanalista, mas não era, entendia de ressuscitar gente, fossem poetas loucos ou não, e seu trabalho estava feito.Mais tarde, dr. Willian viria a se recordar do modo como o poeta havia aberto os olhos após voltar a vida.
Para entender aquele olhar era preciso se conhecer a historia de Paul, no entanto dr. Willian não a conhecia.



A HISTÓRIA DE PAUL.

Paul molhou o bico de pato na tinta. Só sabia escrever assim. Não lhe viessem com frescuras de máquina de escrever, computador, não admitia, sua poesia sempre fora escrita a bico de pato, era essencial que assim fosse, concordava com Tolstoi, embora não gostasse de sua obra. Grande porcaria, só de pensar já fico exausto. Foi assim que reagiu quando questionado por uma repórter de um famoso jornal, sobre o que achava da obra de Tolstoi, com especial ênfase para Guerra e Paz, a repórter, ficou sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. Pode escrever ai, que eu assino. Foi o que Paul disse a ela. Pensou em dizer também alguma frase de efeito, do tipo, Tolstoi era uma besta, mas no momento se lembrou que já haviam dito isso sobre Marx. Neste momento Paul mais uma vez mergulha o bico de pato na tinta, o faz deslizar no papel branco. Respira fundo. Paul, ainda não é o poeta louco, é apenas Paul, o poeta.
O pouco que se sabe sobre o dia-a-dia, a rotina, os pensamentos, desejos de tão enigmática figura é aquilo que foi publicado recentemente no livro de Arthur Edgar Skisonivosck, maior autoridade viva em poesia mórbida, livro esse, aliás, de vendagem astronômica, atiçada, antes de tudo, é claro, pela compulsão que o ser humano tem por saber da vida alheia, ainda mais quando a tal pessoa alheia se trata da célebre figura de Paul, o poeta louco. No livro intitulado: Poesia mórbida; o belo no lixo, o famoso biógrafo e especialista nas mais variadas formas estilísticas desse movimento que vem tomando proporções cada vez maiores, a poesia mórbida, juntamente com seu grande percussor, Paul, o poeta louco.
O primeiro livro de Paul, intitulado Ao entardecer das viceras, não foi de imediato um sucesso, como a maioria das pessoas imagina, revela o biógrafo, pelo contrário, o livro permaneceu anos na obscuridade, em um anonimato tamanho, que nem mesmo Paul se lembrava de te-lo escrito. Anos depois quando uma outra repórter de um grande jornal lhe perguntou sobre o mesmo, Paul coçou a cabeça e meditou por alguns segundos, então se lembrou, não conhecia ninguém que tivesse um exemplar. Foi uma correria aos sebos, as pessoas queriam por que queriam ter em seu acervo tal obra, alicerce de toda a poesia mórbida de Paul, o poeta louco.
Conta-nos o biógrafo em suas páginas introdutórias de Poesia mórbida; o belo no lixo, a infância de Paul, nascera em alguma parte do distrito industrial, na cidade de Detroit , embora, afirme em um enorme rodapé, que lhe faltaram evidências que comprovassem tais informações, permanecendo assim a origem do artista, uma incógnita quase indecifrável. Arthur Edgar Skisonivosck, por páginas a perder de vista, e a se perder a paciência do leitor com literatura tão rebuscada e laboriosa, disserta sobre, essa suposta, infância pobre do poeta, que chega a nomear de gênio do mórbido lírico¸ nascido nas excreções do mundo donde lapidado de zelo e ousadia fez poesia do lixo, da coacla imunda fez papel de seda, do verme imundo fez a leveza...e se não se saltar para a próxima página o leitor irá de deparar com eloqüentes elogios à poesia vinda do lixo.
O biógrafo tenta, sem muito sucesso, narrar as desventuras do garoto pobre, que cresceu entre latas de lixo, operários suados, prostitutas necrosadas pela herpes e pela sífilis, tenta apresenta-lo em primeira estância como vítima desse sistema de classes cruel que esfacela as vontades individuais e transforma o homem em simples objeto de barganha na mãos dos grandes capitalistas, Skisonivosck procura também chamar atenção para o olhar diferente que o menino, e logo depois o adolescente e o homem, lançava em direção aos latões de lixo e ao horizonte, enquadrando ambos na mesma pose, transformando assim a perspectiva em uma verdadeira metáfora da realidade, o que existia e que o artista imagina como sendo o ideal. Páginas e mais páginas, onde o biógrafo confunde o leitor com comparações tiradas sabe-se Deus de que lugar, chega até mesmo a citar a obra de Dante, num ato de desespero ao comparar céu e inferno dentro de uma mesma perspectiva, é esse o momento em que se deve virar a página e saltar pelos menos uns três capítulos adiante.
Por essas páginas, bem mais adiante, Skisonivosck propõem-se se a relatar as experiências sensórias e extra sensórias daquele que viria a ser o grande fundador da poesia mórbida, o biógrafo passeia sua pena, inculta à primeira vista, mas não se pode duvidar de sua boa intenção, por recantos e caminhos antes percorridos e ocupados por tão frágil figura, consta em relatos de testemunhas, todas mortas no momento, que Paul se tratava, desde a infância, de uma figura pálida, esquálida, esguia, de anemia profunda, mas é claro que essas informações, embora não questionadas, parecem ser um tanto quanto exageradas, já que nas fotos de infância, que Paul afirma serem suas, embora a criança da foto tenha olhos azuis, bem diferentes dos seus, que misteriosamente são pretos como carvão, ele aparece sempre bem vestido e com bochechas rosadas, montado em um pônei, fazendo uma pose mal encarnada de vaqueiro. Bem, deixando de lado essas pequenas contradições biográficas, é acertado afirmar que, apesar do esforço, quase sobreumano do biógrafo, segundo suas próprias palavras, havia pouquíssimo material disponível, e muitas das fontes, fidelíssimas segundo Skisonivosck, se negaram ostensivamente, algo muito incomum, a falar sobre determinados episódios da vida regressa do poeta.
Nos próximos capítulos Skisonivosck, prestes a matar o leitor de tédio, aventura-se pelos cenários pitorescos da classe operária, ou seja lá o que for que ele encare como pitoresco ao descrever a suposta miséria e discrepância social em que cresceu mergulhado Paul até aos 17 anos, quando esse conheceu aquela que iria mudar seu futuro tão sem perspectivas, nas palavras do biógrafo, Eleonor. Essa bela mulher também nascida no coração do gueto, aqui Skisonivosck já começa a usar os chavões e clichês como recurso literário, o que deixa os próximos capítulos deprimentes e piegas, além, é claro, de cada vez mais enfadonhos. Eleonor bela mulher, negra, peitos enormes e bunda arredondada, conhece o futuro poeta durante uma assalto, onde dois bandidos lhe rendem, tomam sua bolsa e seu carro, e tencionam ainda lhe explorar sexualmente, é neste momento que Paul entra na história, circunscrita pelo biógrafo como um momento único de heroísmo juvenil, o fato em si, ou o que se interpreta de tal literatura, confusa e um tanto quanto disparatara, da qual Skisonivosck passa fazer uso nas páginas subseqüentes à intervenção heróica no fatídico episódio em que se viu a bela Eleonor, por ocasião, é preciso citar, de uma visita a família, que ainda morava no bairro operário, e aliás, se negava a sair de lá e abandonar o que Skisonivosck passa a chamar de sacro berço plebeu, o fato é que Eleonor levou Paul para almoçar com a sua família.
Nesse episódio o futuro poeta percebeu as nuances familiares, de como elas todas tem suas particularidades embora em um contexto geral sejam distintas, se Paul soubesse russo com certeza teria concordado com a célebre frase com que Tolstoi inicia seu romance sobre a bela Ana karenina, mas Paul não sabia, e mesmo que soubesse, isso deve ter passado pela cabeça de Skisonivosck, ele teria feito melhor uso da língua, quem sabe ensinado novos palavrões ao moleques do bairro. Durante esse almoço com a família de Eleonor, onde ela contou o episódio ocorrido a instantes atrás, foi levantado um brinde, pelo pai da bela moça, ao mais novo herói filho da plebe, nas palavras do biógrafo, que nesse trecho passa a recorrer cada vez mais a chavões e formas lingüísticas menos eruditas, o que, aliás, não é capaz de deixar sua literatura mais deglutivel, pelo contrário, fica cada fez mais intragável, bem diferente, é claro, da refeição oferecida pela família da bela Eleonor. Depois de uma pequena dose de vinho o futuro poeta está bem mais a vontade e é até mesmo possível, nos afirma Skisonivosck , dizer que Paul já havia vestido a máscara do herói e já se sentia dono da espada flamejante da justiça, são essas as palavras que o biógrafo usa ao descrever o sorriso e a postura que Paul toma à mesa, cheio de sorrisos e mesuras, bem diferente do Paul sóbrio, esse Paul já seduzido pelo vinho oferece-nos uma outra face do seu caráter, face essa que Skisonivosck diz passar a ser cada fez mais comum a estampar o poeta.


AINDA NO HOSPITAL E DEPOIS EM UMA LIVRARIA


Dr. Willian arruma as gavetas, o relógio marca quase seis e meia da manha, seu plantão acaba em poucos minutos. Ainda pensa em Paul, o famoso artista da cultura mórbida, fundador de uma nova concepção estilística, lírica e poética, segundo ouviu de pessoas mais entendidas, mas o que atiça a curiosidade do medico não é a inovação ,por esse proposta, no campo das artes, sim aquele olhar logo ao despertar, olhar de quem apenas acorda, como se apenas houvesse ido se deitar após tomar um copo de leite quente, como se não houvesse ficado, clinicamente quase um minuto morto. Isso intriga dr. Willian, ele olha para o relógio na parede, hora de encerrar seu plantão. Paul está em um quarto da enfermaria, dr. Willian pensa em passar pelo quarto e dar uma última espiada no poeta, mas acha melhor não, melhor não ver aquele olhar, que desafiou seus mais de trinta anos de exercício da medicina. Havia algo que ele, dr. Willian, não conseguia compreender, por que toda aquela passividade bovina, aquela tranqüilidade, a apatia de como se nada de anormal estivesse acontecendo?
Dr. Willian junta suas coisas, estetoscópio, jaleco, sua maleta de couro, apaga a luz e sai para o corredor iluminado, branco, a se perder de vista, um gigantesco e inumano labirinto de Creta, frio, cinza, as paredes parecem exalar uma apatia tão grande quanto àquela que emergiu dos olhos do poeta ao voltar à vida. O médico pisa na calçada, pessoas já despertas caminham com pressa, indo para o trabalho, mais um dia, pensa o médico. Caminha rua acima, nunca usa o carro para ir pra casa, são apenas alguns quarteirões, ele caminha devagar, faz bem para o coração, comprovam os estudos mais recentes, pára na padaria da esquina para um café preto, cafeína, já essa não é ideal em muita quantidade, depois do café dr. Willian acende um cigarro, esse habito definitivamente não faz bem, ele não se importa, ficou a noite toda dentro do hospital sem poder fumar, agora dá baforadas enormes, traga a fumaça para dentro do pulmão com força, volta para a rua.
Ao passar enfrente a banca da esquina, onde há uma enorme quantidade de livros e revistas em exibição, ele, ao contrário de todas as manhãs nesses últimos trinta anos, resolve entrar, o tempo está agradável, dr. Willian não é um homem dado a leituras fora de sua área de atuação, lê somente compêndios de medicina, é então que seus olhos pousam sobre um livro que lhe chama a atenção pelo título : Poesia mórbida; o belo no lixo. A biografia não autorizada de Paul, o poeta louco; de Arthur Edgar Skisonivosck.


A HISTÓRIA DE PAUL

O famoso biógrafo de Paul, o poeta louco, nos capítulos subseqüentes a narrativa do encontro ao redor da mesa entre os membros da família da bela Eleonor e do poeta em questão, que no momento vitima de sua primeira investida ao universo alcoólatra, demonstrava profunda inabilidade no traquejo social, assim é pintada mais adiante a cena, tendo Skisonivosck feito uso das palavras que supostamente brotaram das bocas das próprias testemunhas que entrevistou e que alegaram estarem presentes por ocasião desse primeiro encontro entre o poeta e aquela que viria a ser sua grande musa. Os fatos que Skisonivosck propõem-se a relatar nos capítulos adjacentes dão conta dos primeiros episódios desse colóquio que culminaria no grande romance que deu ares líricos àquilo que mais tarde fora batizado pelos especialistas como poesia mórbida. Consta que foi a partir dessa tarde, depois do almoço e de um passeio pelo bairro, que aconteceu o primeiro beijo entre o casal, mas ao biógrafo faltaram elementos para descrever com exatidão o cenário, mas fazendo uso de sua pena um tanto quanto anacrônica Skisonivosck pintou um cenário pequeno-burguês demais para envolver tão sublime momento de realização e descoberta para o jovem Paul, que ainda, segundo o biógrafo estava no começo de seus 17 anos.
Há, no entanto, de se fazer justiça ao minucioso trabalho de Arthur Edgar Skisonivosck, que se abnegou de qualquer outra coisa durante vários anos para dedicar-se exclusivamente a esse exaustivo e ingrato trabalho de pesquisa, viajou, vistoriou o lugar onde o poeta crescera, entrevistou pessoas, ouviu depoimentos contraditórios, narrações e interpretações diferentes para acontecimentos únicos, e coube a ele, usando sua profunda sensibilidade a argúcia literária, decidir-se por aquilo que parecia ser o mais sensato, tento em contraprova o seu conhecimento da obra do poeta. O mais fácil seria entrevistar o próprio Paul, mas esse vitima de sua loucura cada vez mais ascendente não foi capaz de dizer o próprio nome.
Nos capítulos posteriores àqueles em que Skisonivosck narra o nascimento e amadurecimento desse idílio entre o futuro poeta e a bela Eleonor, o biógrafo torna-se de fato insuportável ao dissertar sobre o amor, faz citações disparatadas e nada conclusivas a respeito do tema, que como os demais, parece não dominar, faz alusões a versos do poeta e com eles tenta justificar as atitudes que provêm de uma loucura já atestada por especialistas renomados, que por vezes já examinaram Paul nos últimos anos e diagnosticaram a insanidade, uma insanidade degenerativa e incurável, no entanto o poeta não faz nada além de seus versos cada vez mais mórbidos, não oferece perigo algum a ninguém, Skisonivosck, fazendo uso de subterfúgios lingüísticos tenta inocular no leitor mais desavisado vestígios de seu, pelo menos aparente ódio por esse sentimento tão fugaz, chega a cabalidade de ostentar palavras de repudio ao amor, e finge, ironia, ao dizer que as próprias palavras estão contidas no mais célebre poema de Paul; Aos vermes com carinho, poema da primeira fase do poeta, diz o biógrafo ser possível a identificação de variados cognatos que atestam um profundo repudio de Paul ao sentimento mais pintado pelos versos de outros poetas ao correr dos séculos, e fecha suas conclusões com um verso do mesmo poema, o amor fede mais ao amanhecer.
Passado a turbulência das considerações pessoais do biógrafo ele salta para o desenrolar do idílio entre o poeta e a bela Eleonor, faz sem muita sutileza, como é, aliás, sua maneira peculiar de instituir a prosa biográfica, no entanto, com uma leitura atenta de determinadas passagens, e informações maquiadas por metáforas mal construídas é humanamente possível identificar incongruências e falhas cronológicas, bem como anacronismos mais bárbaros em outros trechos, mas deixando tudo isso de lado, Skisonivosck brinda ao leitor, um profundo admirador da vida de outrem, e por conseqüência, eu imagino, não poderia ser diferente, um voyer dos mais sádicos, a esses o biógrafo narra a mais tórrida das cópulas, essa ocorrida em um cenário que Skisonivosck mais uma vez pinta com suas nuances de influências completamente burguesas, o coito é descrito por ele como se tratando de algo hediondo e bestial, narra de forma cruel, e sádica, em alguns trechos, o defloramento da bela Eleonor na plenitude de seus pouco mais de 16 anos, não parece, esse erudito estudioso, estar atento ao acontecimento em si, que antes de um fato, era um encontro, um desabrochar de dois jovens para as delicias do amor, para Skisonivosck nada mais é do que um ato mecânico, implorado pelos corpos em sua mais nefasta sanha libidinosa e bestial, um observador menos preocupado com as convenções morais e cristas, estas ambas, heranças do pensamento pequeno burguês do biógrafo, teria visto na cena uma afirmação da grande maravilha da vida, razão da existência, mas Skisonivosck não, ele vê o pérfido, o mórbido, o imoral, a truculência da defloração e a narra com violência e devassidão, mancha de sangue o papel e macula a reputação da ex-donzela bem como também de Paul, que nesse momento nada mais é do que um aliciador, cheio de vilania e mas intenções, por mais uma vez Skisonivosck demonstra sua total inabilidade ao retratar o amor.
Neste trecho parece haver conotações em conflito, a laboriosa meta, aparentemente atingida, nestas páginas, parece entrar em choque com as opiniões pessoais do biógrafo, criando assim contradições que não são capazes de escapar ao crivo de um leitor mais perspicaz, nestas condições fica claro o interesse, talvez inconsciente de Skisonivosck, de conspurcar o ato em si e o que dele se deriva, transpondo-o para um campo, embora abstrato, de venalidade, onde transforma, a ingênua, simples e pueril poesia do amor e do sexo consensual em um deprimente espetáculo lascivo, mas há algo envolto nessa neblina retórica que o biógrafo deixa escapar de sua pena, talvez advinda de experiências semelhantes vivenciadas pelo próprio Skisonivosck. Os trechos se estendem nesse mesmo ritmo por mais alguns capítulos, onde a intimidade do casal é explorada por Skisonivosck de uma maneira quase que impessoal, como se esse, por instantes, se esquecesse do verdadeiro objeto de sua pesquisa e de repente se jogasse e meio as páginas intermediárias de um romance vulgar qualquer do século passado. Skisonivosck esmiúça os movimentos da cópula juvenil, por mais uma vez, e novamente sem a perspicácia que é desejada de um biógrafo, se lança a universos que não lhe são de oitiva, tenta construir sua prosa em forma de um tratado, quase que canônico, piegas e por muitos trechos, anacrônico, tendo em mãos mais uma vez o uso de vocábulos emergentes de dialetos operários se lança a descrever essa primeira experiência sexual de Paul, lhe narra a fome ao morder a carne firme da bela Eleonor, sua virgindade ainda não abrasada pelo desejo, ainda não violentada por membro algum, descreve de forma quase que torpe o ato em si, usa termos como; animalesco, imoral, bestial e lascivo, não percebe toda a poesia implícita nesse simples ato de o poeta beijar os bicos intumescidos dos seios de sua amada.
Daí por diante, com Paul já iniciado nos prazeres da carne, Skisonivosck acrescenta a seu olhar uma perspectiva devassa, como se fosse esse apenas um canastrão na milenar arte do genuíno idílio, tenta dar a sua prosa biográfica ares de uma sapiência modesta, mas que não chega, de fato, a alcançar, tenta em certos trechos, principalmente quando tenta expor nuamente os sentimentos e pensamentos que devoram o mais intimo do âmago do futuro poeta, imitando o mecanismo biográfico de Stefan Zweig, mas longe de sua prosa estão os recursos estilísticos do outro, impecável, por exemplo, ao narrar a vida de Balzac, desde sua decadência em uma Paris inóspita, fria e ácida até o nascimento de suas principais obras primas, Skisonivosck está a léguas de distância da sutileza da prosa de Zweig, quilômetros ao leste de sua sensibilidade com o trato dos sentimentos alheios. Skisonivosck nos trechos a seguir divaga sobre a descoberta do amor, compara-na, entre muitos exemplos, à descoberta da sobreposição do polegar sobre os demais dedos, a descoberta do fogo, a invenção da roda e da escrita, divaga por páginas e páginas tentando dar um corpo mais sutil ao abstracionismo de sua prosa.


EM UM APARTAMENTO DE DOIS DORMITÓRIOS.

Quando dr. Willian chegou em casa o sol entrava pela janela emergindo do leste. Subiu pelas escadas, os três andares, o elevador como sempre já amanhecia com problemas. Dr. Willian deixou livro sobre a mesinha de centro, na sala, e caminhou para o banheiro. Gostava de tomar uma ducha fria assim que deixava seu plantão, repetia esse mesmo ritual a quase trinta anos. A água gelada era como um analgésico para a alma, sentia-se renovado, completamente revigorado, não só fisicamente, mas em todos os outros aspectos. Do banheiro, mesmo com todo o ruído desprendido pela água que cai, dr. Willian ouviu o telefone tocar. O telefone nunca tocou a essa hora, em trinta anos, tal coisa nunca havia ocorrido. Quem seria? Talvez fosse engano. Bastante provável. Ele achou melhor não atender, logo a pessoa percebia o engano e desistiria. No entanto, não foi isso que se deu. O telefone gania cada vez mais insistente, e isso deixou dr. Willian apreensivo, aquele telefone estava estragando seu banho matinal e revigorador, estava maculando, profanando um ritual de mais de trinta anos.
Já não era possível ignorar aquele som, o titilar desesperado do aparelho na solidão do apartamento deserto. Dr. Willian deixou o chuveiro e enrolado em uma toalha, caminhou em direção ao aparelho inconvenientemente tagarela.
-Alô! – Foi quase um bramido.
-Dr. Willian?
-Sim, sou eu.
-Aqui é John Fixer.
-Eu deveria saber quem é?
-Sou o melhor amigo de Paul, eu o levei ontem para o hospital.
-Ah, sim estou me lembrando.
Dr. Willian se lembrou do homem que entrou pelo corredor do hospital, carregando o poeta desmaiado, mole como macarrão cozido, um pouco mais novo que Paul, dr. Willian calculou mentalmente, imaginou algo entre 55 e 58 e oito, de qualquer modo quase 60. no momento em que viu John caminhando pelo corredor do hospital com o amigo nos braços, dr. Willian imediatamente pensou que eram irmãos devido a grande semelhança, embora Paul já tivesse os cabelos quase todos brancos. Depois foi que lhe contaram alguns detalhes sobre a amizade dos dois, haviam se conhecido no Vietnã, lutaram no mesmo pelotão, passaram frio, fome e sede juntos, provaram dos tormentos da insônia, do medo, do desespero, experimentaram juntos as maiores torpezas que o ser humano é capaz de infligir a seu semelhante, a guerra havia os transformado em irmão, se não de sangue, de coração, mas no momento em que dr. Willian, a contragosto, atende o telefone já não se lembra da cena do hospital, ela volta aos poucos, ilumina devagar a memória.
-Queria saber se Paul não corre mais riscos.
-Se tentar cometer o suicídio de novo correrá todos os riscos do mundo, inclusive o de morrer.
Dr. Willian não comumente sarcástico, as palavras lhe saem ser quere, se pelo menos houvesse tomado sua ducha suas palavras não seriam tão amargas. O telefone fica mudo do outro lado. Dr. Willian pousa os olhos no livro sobre mesinha de centro.


A HISTÓRIA DE PAUL.


Paul mais uma vez molha o bico de pato na tinta preta, já perdeu a conta de quantas vezes repetiu esse movimento em toda a sua vida, desde o primeiro livro Ao entardecer das viceras, até seu trabalho mais recente, a trilogia em prosa, Que os ventos benzam as fezes, no entanto seus músculos não ficam cansados desse mesmo gesto, é possível dizer, e atreveu-se a citar Skisonivosck em um dos muitos capítulos de sua biografia não autorizada, Poesia Mórbida; o belo no lixo, o biografo refere-se a esse incansável braço literário do poeta. Segundo o biografo a precisão incansável desse membro foi duramente posta a prova durante a guerra, Paul esteve no Vietnã, conta-nos Skisonivosck. Logo após seus primeiros meses de namoro com a bela Eleonor, viu-se o futuro poeta vestido em uma farda do exército, rumando para o campo de batalha para se juntar às tropas do general William Westmoreland, em terras longínquas e inóspitas, data a partir daí sua amizade com John Fixer, este nascido no estado do Alabama, também foi uma criança franzina como Paul, segundo Arthur Edgar Skisonivosck, o fato, descrito pelo biografo, é que durante a guerra Paul e John se tornaram grandes amigos.
As barbáries presenciadas na guerra, descreve-nos Skisonivosck, foram de importância crucial para a formação do poeta, bem como responsáveis pela morbidez de seu verso, pois a poesia que derivava apenas do sentimento pela bela Eleonor resultava em uma lírica quase que doce, traços dispersos de um romantismo perene, nas palavras de Skisonivosck, já o dia a dia com as intempéries da guerra, do frio, da fome, as hecatombes noturnas, o barulho ensurdecedor dos fuzis e dos bombardeiros B-52, sangue, os homens definhando no front, nas valas, o número de mortos aumentando dia após dia, tudo isso deixou uma amargura profunda na alma do futuro poeta na metade de seus 18 anos, o que o mantinha vivo eram as longas cartas que escrevia para sua amada, no principio cheia de versos de amor, suaves, doces, depois dos primeiros combates o tom das cartas foi se tornado menos sutil, expressavam a revolta do jovem, o medo, a incompreensão dos terrores que os homens impunham uns aos outros, isso chocou Paul, flagelou sua alma a tal ponto que matou sua fé no belo, deu a sua poesia uma nova perspectiva, plantou em seu ser, no mais profundo e escondido, pequenos germes da loucura que mais tarde viria a assolar sua velhice.
São poucas as referências do dia-a-dia de Paul durante a guerra, sabe-se apenas que esteve até o fim, que sobreviveu, voltou aos Estados Unidos vivo, mas ele de certa forma estava em transe, foram seis anos longe de casa, longe da pátria, longe do mundo, enfiado dia e noite em trincheiras fétidas, que segundo o biógrafo, passaram a ser elementos corriqueiros em sua poesia, passando sede, fome e frio. Pronto Paul estava de volta ao coração da América, o país saiu derrotado da guerra, milhares de americanos perderam suas vidas inutilmente em uma guerra sem sentido, em uma guerra que não era deles, com a qual não tinham nada a ver, Paul na primeira noite de volta amaldiçoou Kenedy antes de deitar e dormir profundamente por mais de quarenta e oito horas.
Enquanto Paul dorme profundamente Skisonivosck entedia o leitor com uma analise pessoal da guerra. Pergunta; O que foi a guerra do Vietnã? Nos parágrafos que se seguem ele passa a dissertar sobre os porquês dessa ofensiva bélica americana contra Ho Chi Minh, que queria penas ver seu país livre do julgo colonial francês, a partir da derrota francesa em Dien Bien Phu, Skisonivosck faz um raio-X do conflito, tenta ater-se somente aos fatos históricos, mas uma vez, como o leitor já está farto de perceber, o biografo não tem como um de seus talentos a imparcialidade, qualidade essa de suma importância quando o assunto em questão é a história, então por mais uma vez o biografo se lança em queda livre em meio a datas e nomes, imaginado-se um Césare Cantù da historia contemporânea, o que há, no entanto em comum entre esses dois, é o pensamento burguês com que ambos interpretam os fatos, Skisonivosck consegue ser ainda mais enfadonho que o historiador italiano, num rasgo de anacronismo ele apresenta ao leitor um Vietnã sem ideais, como se a Frente de Liberação Nacional fosse uma brincadeira de criança, feita de guerrilheiros e mercenários, pinta a necessidade de liberdade gritado por um povo como um triste capítulos para a historia dos Estados Unidos, nesse ponto é preciso que o leitor mais uma vez interrompa o sacrilégio que é ler Skisonivosck, que só o faz, aliás, por esse ser o único a escrever sobre Paul, o poeta louco.
Capítulos adiante o biografo nos mostra Paul já desperto, no entanto ainda frustrado, pois durante sua permanência no Vietnã, Eleonor havia se casado com um outro homem e já tinha um bebê que já ensaiava as primeiras palavras, que o futuro poeta descobre ter o seu nome. Sobre esse período, mais uma vez, Skisonivosck afirma não ter conseguido coletar dados suficientes, o que novamente o arrasta para o universo da conjecturação, no entanto, sabe-se que foi nesse período, e com uma poesia já carregada de morbidez que Paul publica seu primeiro livro de poemas, Ao entardecer das viceras, livro esse que sai da editora com uma tiragem mínima e mesmo assim permanecerá durante muito tempo nas prateleiras das livrarias. Conta-nos Skisonivosck que é dois anos depois que Paul publica seu segundo livro, já não mais nos Estados Unidos e sim na França, não sabe, no entanto, o biografo, como e com que força a obra foi contrabandeada para fora do país, mas o sucesso retumbante na terra de Baudelaire, faz de Paul um poeta conhecido, citado nas mais eruditas rodas de debates, lido em saraus ao cair da noite, reverenciado, citado em compêndios literários Europa afora, mas nada disso deixa Paul mais feliz e sua poesia passa a ser cada vez mais mórbida.
É então que os estudiosos percebem estar nascendo um novo movimento literário dentro da poesia contemporânea, a poesia mórbida, Paul acabava de inscrever seu nome na história, ao lado de nomes como Homero e Goethe, mas isso não era capaz de o emocionar, e já em seu terceiro livro sua morbidez, sua desilusão com o mundo, com as relações entre os homens, fica cada vez mais clara, seu total desapego ao materialismo, ao mesmo tempo que sua total ausência de fé em qualquer deus ou em qualquer perspectiva faz seu verso se tornar ainda mais denso e mais diferente de tudo aquilo que já fora escrito. Durante todo esse tempo a única pessoa que Paul permite se aproximar e John Fixer, o amigo feito no Vietnã, aqui Skisonivosck chega até mesmo a sugerir uma relação homossexual, segundo o biografo, nascida nas trincheiras vietnamitas, alimentada pela solidão e ausência de mulheres no front, mas nada fica provado pelo biógrafo, que se perde mais uma vez em uma estranha selva de conjecturassões e suposições, partidas de seus conceitos e pontos de vista burgueses.
Com a publicação de seu quarto livro; Espasmos a flor da pele, Paul atinge de fato a celebridade, todos querem o entrevistar, querem-no levar a programas de TV, palestras por todo o país, seminários em Universidades, as mais variadas pessoas, das mais variadas faixas etárias, nacionalidades, credos, opiniões políticas anseiam por sua palavras de iluminação, sua sapiência, sua cultura, querem saber do lixo que o inspira, dos tormentos da guerra, de suas desilusões amorosas, o que quer dizer esse ou aquele verso, que poeta prefere ler, Rimbaud ou Verlaine, ou prefere Emerson o poeta que lhe conterrâneo, no começo Paul parece não se importar, responde a todos, com ares cansados, sempre exausto, com poucas palavras, monossílabos na maioria das vezes, mas com o passar do tempo toda essa balburdia o cansa, o estafa e ele se recolhe para algum lugar desconhecido, sempre acompanhado por John e torna-se durante alguns anos um ermitão. Durante esse período produz sua obra-prima Meretrizes Douradas, livro que se esgota em questão de horas das livrarias do mundo todo, com publicação simultânea em dezenas de países, mais uma fez pouco está em foco, os grandes jornais estão desesperados atrás de suas poucas palavras, anseiam por seus monossílabos desencontrados e mal humorados, mas ele já está ausente, está mais uma fez recluso, mais uma fez a única coisa que lhe mantem vivo é o habito incansável e já quase robótico de mergulhar o bico de pato na tinta preta.
Recluso e escondido do mundo Paul produz, com a mesma febre que possuía Balzac madrugadas adentro, enquanto escrevia romances chulos para sobreviver e se tornar um célebre escritor e sobretudo, provar para todos que tinha talento, no entanto ao contrário do grande mestre Francês Paul não tem essas preocupações, não deseja fama, não quer nobreza, não anseia por dinheiro ou celebridade, ele quer apenas paz, quer aliviar sua alma do peso de uma existência sem sentido, uma existência legada ao vazio, Paul não entende os motivos que levam o homem ao beco sem saída do existir, e isso fica evidente, aponta Skisonivosck, nos três livros que escreve durante esse período de exílio; Misantropas Pestes, Podres Idílios e Rimas Póstumas, obras essas onde o verso chega até mesmo a causar ânsias de vômito em leitores ainda não iniciados na obra de Paul, para os especialistas e também na opinião de Skisonivosck, essas obras traduzem da maneira mais real possível o estado latente em que se encontrava a alma de Paul. Por ocasião da publicação foi John que procurou os editores e entregou os originais, foi ele quem fechou todos os contatos, assinou todos os documento, portando para isso uma procuração de Paul, essa aliás assinada a bico de pena. Paul estava ficando cada vez mais recluso, mas triste, segundo depoimentos que Skisonivosck colheu do próprio John, cada vez mais contemplativo, ficava horas seguidas a escrever, a olhar com olhos perdidos para o horizonte, a mergulhar o bico de pato na tinta preta.

OUTRA VEZ NO HOSPITAL

John Fixer parecia estar exausto, tinha olheiras enormes, foi o que reparou dr. Willian quando o homem entrou em sua sala, mexia as mãos, num cacoete de nervosismo, estava bastante agitado as sete da manhã, fitou Dr. Willian por detrás de seus óculos Ray-ban e nada disse, parecia esperar que o médico principiasse a conversação.
- Paul já pode ir embora. – disse o médico.
- Mas ele está cada vez mais louco.
- Senhor Fixer isso aqui não é um hospital psiquiátrico, ele só está aqui por que teve uma parada cardíaca e precisava ser ressuscitado. Daqui por diante não posso fazer mais nada.
John apenas balança a cabeça.
- Obrigado Dr. Willian.
Ele sai, caminha em direção ao quarto de Paul. Sentado por detrás da cadeira o médico vê os dois amigos cruzarem o corredor e caminharem em direção a saída, Paul está apoiado no amigo e ambos caminham vagarosamente, Paul ainda lança um ultimo olhar para o fundo do corredor, mas pela distância enorme dr. Willian não consegue identificar esse olhar, não consegue saber se é igual aquele que lhe lançou logo após ser trazido de volta a vida. O médico se levanta, caminha para corredor. Sente uma enorme vontade de fumar. Pensa nos olhos do poeta, que talvez nunca mais veja, e talvez nunca venha a entender o que significava aquele olhar que tanto o perturbou.

A HISTÓRIA DE PAUL

Nos capítulos finais de Poesia mórbida; o belo no lixo, Skisonivosck pinta a figura do poeta já com as nuances perturbadoras da insanidade, Paul mergulhado em sua reclusão, escreve aquilo que se tornaria sua grande obra em prosa, demonstrando também grande versatilidade, escreve uma obra densa, perturbadora, drástica, sarcástica, irônica, recheada dos velhos tormentos presentes em seus versos, a propensão mórbida atinge parâmetros cada vez mais indescritíveis ao costumas crítico literário, segundo Skisonivosck Paul já não é o rapaz ferido pela guerra, pelo desamor, pela indecisão, a incompreensão do mundo que o cerca, é esse Paul já um louco, um zumbi, um misto de médico e monstro, nos atesta o biógrafo. Arthur Edgar Skisonivosck nesses últimos capítulos pinta, também, a si mesmo como uma espécie de profeta do caos, cita Gibran, faz profecias perturbadoras, pinta novos caminhos para a poesia mórbida iniciada por Paul.
Que os ventos benzam as fezes, é esse o título da grande obra em prosa, mas não prosa pura como admitem certos críticos, sim prosa poética, na análise de Skisonivosck, tal prosa, segundo o biógrafo, é o principal indício da insanidade que já começava a se manifestar em Paul, sua propensão à misantropia, sua aversão ao gênero humano está cada vez mais latente e mais acentuada a cada página dessa obra, que se trata se uma extensa trilogia, onde Paul narra a história de Steban, garoto pobre, nascido e criado nas docas, o pai um estivador bêbado e a mãe uma mulher batalhadora, mas com uma doença degenerativa que lhe levará a vida ainda nas primeiras páginas. Skisonivosck afirma ser essa obra, que é dividida em três grandes volumes, o primeiro; O menino e as lágrimas, o segundo; O jovem e as pragas, e o terceiro; O homem e as chagas, um tratado de profunda crítica aos valores nacionalistas, ao poder, a sociedade estamental, ao pensamento cristão que assola as mais variadas camadas da sociedade, a moral destorcida em nome de interesses particulares, a ética abstrata, a corrupção, a desordem, o caos social, o medo, o horror, a torpeza, a guerra, o terror bélico, o terrorismo, por mais uma vez Skisonivosck torna-se um crítico da América contemporânea, diz, um país que não consegue cuidar de seu próprio povo e quer governar o mundo, quer impor regras, gerir as atitudes de outros países, Skisonivosck deixa transparecer nesses trechos todo o asco que sente da figura emblemática do Tio Sam, personagem que deseja gerenciar o mundo todo sentado de sua cadeira na Casa Branca.
Skisonivosck faz de seu discurso, metade moralista, metade profético, uma porta aberta para, e, daquilo que imagina ser a mensagem por detrás da triste história de Steban, mas por outro lado o biógrafo abre um relevante parêntese, onde situa o próprio Paul com um auto-inspirador de sua própria obra, dando assim à extensa trilogia ares autobiográficos, partindo desse paradigma Skisonivosck põem-se a tecer uma complexa teia, um emaranhado de fatos já citados em páginas anteriores, no entanto dessa feita o biógrafo, a cada parágrafo, procura fazer uma dupla analogia da vida de Paul com a vida do personagem Steban, em determinados trechos a ficção parece se fundir perfeitamente com a realidade, e nesses momentos Skisonivosck rejubila-se de sua argúcia ao perceber tal metamorfose, então sugere ao leitor que uma análise bem mais profunda da alma do poeta pode ser identificada no seu próprio texto, esses, escritos de seu próprio punho e tendo com instrumento seu lendário bico de pato, o mesmo com o qual escreveu as cartas, para a bela Eleonor, durantes a guerra.
Após dissertar por páginas e páginas a respeito das possíveis congruências entre Steban e seu criador, Skisonivosck propõem-se a elucidar o mais complexo dos temas que cercam a personalidade do poeta em estudo, a loucura, que além de um mal que lhe assola é também uma alcunha de sua genialidade, nas palavras de Arthur Edgar Skisonivosck, donde provem e como se prova tal estado mental? Skisonivosck afirma duvidar de tal estado de insanidade, prefere transforma-lo em misantropia, em uma aversão ao mundo que machucou o homem que habita por detrás da carapaça grossa do poeta, para o biógrafo Paul é apenas um homem cansado, um ser gasto, alguém que chegou a velhice sem ter saído da infância, deixou a infância sem ter sido criança, e foi criança sem ter podido brincar, nesse trecho Skisonivosck usa de tamanha artimanha lingüística para preencher o vazio ideológico que por momento o domina, não sabe de fato o que pensar sobre a loucura e talvez por isso limite-se a nega-la, a refuta-la de todas as formas possíveis e para isso mais uma vez toma nota dos mais variados subterfúgios lingüísticos, dessa feita, no entanto, parece obter mais sucesso, já que por paginas e paginas seu discurso acalorado chega as vias de emocionar o leitor, com isso Arthur Edgar Skisonivosck fecha vai encerando seu enorme livro, um volume de quase 400 paginas, trabalho composto durante mais de quatro anos de elaborada pesquisa.
Fica, no entanto, a duvida no leitor que o lê hoje. Que motivos teria Paul para o suicídio? Por que Eleonor não foi capaz de o esperar voltar do Vietnã? Qual seria o caráter de sua verdadeira relação com John? Por que se isolou? O que procura encontrar no exílio? O por que do amor platônico por seu bico de pato? Por que aqueles olhos e aquele olhar ao voltar da vida? São essas as perguntas, que Arthur Edgar Skisonivosck não consegue responder em sua obra Poesia Mórbida; o belo no lixo, uma biografia não autorizada de Paul, o poeta louco.

NOVAMENTE NO APARTAMENTO DE DOIS DORMITÓRIOS


Dr. Willian sai do banheiro, enche um copo até a metade com vodca, acende um cigarro, se senta no sofá, pega o livro de Skisonivosck, abre o livro e põem-se à leitura, lê uma pagina, duas, três e de repente está dormindo, o livro escorrega de suas mão e cai fechado no chão.
Pela janela a lua escala o céu.



Odair J. Alves
Junqueirópolis, 28 de maio de 2008

Um comentário:

du_Santus disse...

opaa

passei pra agradecer o comentário q vc fez no meu blog!

ia ler seu post mas confesso q achei meio grande pro momento. qq hora dessas volto aqui e leio com mais calma ok!

flws cara
abçss!